A intenção

Dizem alguns poetas que amar de verdade é amar também o que incomoda no outro. Eu discordo.
Eu não amo o que incomoda, o que me machuca do outro ou o que costumamos chamar de defeitos. Acho que o amor verdadeiro é aquele que apesar disso, ama. Apesar da sombra que o outro tem, amo, porque também conheço seu sol e ele me encanta. Conheço a poesia das suas atitudes mais dignas e mais altruístas. Conheço suas inúmeras tentativas, ainda que falhas, de acertar. A intenção do ato, diz muito mais que o ato em si. Amo o outro apesar de, porque sou capaz de me amar apesar das coisas que me incomodam em mim. E mais, somente sou capaz de amar o outro quando antes, fui capaz de me amar. Quando perdoei meus defeitos, quando pude ser compreensiva com meus próprios deslizes e contrariedades. Quando respeitei meus limites, meus territórios frágeis e minhas inseguranças. Quando entendo minha humanidade, posso com mais facilidade, entender também a do outro. E este exercício, o de amar, sim, pois é um exercício, ninguém nasce sabendo, apenas vamos nos aprimorando com a prática. Este exercício, exige muito. Não é tarefa nada fácil. Dizer frases de ordem como "mais amor, por favor", isso sim é fácil. Amar mesmo, não. É peleja todo santo dia. E a gente erra muito nesse esforço. Mas como eu ia dizendo: a intenção do ato, diz mais que o ato em si.

Joice Buzzi

Comentários

  1. Talvez amar seja a grandeza que adquirimos ao olhar ao nascer de uma nova vida, ao olhar o envelhecer de nossos pais que tanto batalharam por nós, em que ambos percebemos que não estamos sozinhos no mundo apenas para vivermos em função apenas de nós mesmos, mas para aprender a ensinar e compreender, cuidar e entregar um pouco de nós mesmos para as pessoas..

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