MORTE

A gente não morre só no último e derradeiro instante de vida. Morremos antes e muitas vezes mais durante toda nossa trajetória. Morremos para viver e morrer novamente, nesse ciclo que se repete até que enfim, não se tenha mais vida para morrer. Os suicidas morreram bem antes do veneno que os matou. Bem antes da bala que eles mesmos miraram contra suas cabeças.

A gente morre cada vez que vê o mal triunfando, a mentira ganhando lugar de destaque. A soberba trilhando caminhos para o sucesso e a fama. O poder destruindo as almas daqueles que tinham potencial para serem bons. A justiça falhando quando deveria amparar. O Estado sendo saqueado e nossas vidas sendo destruídas por aqueles senhores de terno. Os senhores de terno são os que mais me dão medo e mais vezes atiraram em minha cabeça destruindo minha esperança, que de teimosa insistia em ressurgir das cinzas.

Morremos na palavra mal dita. Maldita palavra que não imaginamos a força que possui até atingir um coração sensível. Maldita palavra, a única que me sobra nos momentos de dor e desesperança. Maldita palavra, que só atinge uma meia dúzia de pessoas que já estão tão convencidas quanto eu do que tento dizer.

A gente morre, tantas e tantas vezes, que a morte final já não parece tão assustadora. E a gente morre mais quando se percebe disso. Viver é morrer, já dizia um antigo filósofo. Viver é um aprendizado da morte. É aprender a viver apesar dela, da morte constante. É saber que viver é isso aí mesmo, quer você ignore o fato ou não.

A sabedoria contida na filosofia tem ótimos ensinamentos para se viver bem, por isso não vou ficar aqui repetindo o que já foi dito, se quiser, procure os filósofos, minha intenção agora é desabafar.

Desculpe se lhe pareço triste, se não lhe trago palavra de conforto, mas aprendi que a melhor forma de crescer e lidar com a dor é primeiro não mentir pra si mesmo, não ignorar a presença do que dói.

Venha dor, venha morte. Venha para que depois de ti eu possa renascer inteira. Venha e desfaça a carcaça opaca que me tornei. Venha e dissipe minhas ignorâncias, mágoas e rancores. Faça com que depois de ti eu possa ser outra, renovada e cheia de vida para a próxima morte. Sempre haverá a próxima morte. Das ilusões, dos amores, das alegrias. Mate tudo em mim que me impede de seguir. Mate para que eu possa viver. Viver, para que enfim, quando a morte última me encontrar, eu esteja mais viva do que nunca.

Joice Buzzi
            

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