Guardo em segredo minhas transcendentes epifanias. Não é difícil alcançar esses estados sublimes de ser. Caminho um pouco e observo as coisas que me circundam destituindo-lhes de seu significado. Tento enxergar o que é em seu estado bruto sem os vícios do meu olhar humano. Sem as ideias que acompanham as coisas vistas. A árvore é isso mesmo que eu enxergo, sem as palavras que eu uso para descrevê-la. Faço o contrário do que faço agora. Não dou nome, nem forma, só me permito a imagem. A imagem pura. Com a imagem vêm as sensações. Essas sensações mesmas não entendo, me contento em sentir.

A partir desses sentimentos sou invadida de súbito por imagens do passado e de um futuro que construo na minha cabeça, flutuo. Flutuo pelas lembranças e me comovo. Me comovo com o amor, com a ternura, com o que é e poderia ser diferente, com o que é mas não poderia saber se poderia ter sido diferente. Essa vida mesma que não nos concede ensaios. Essa vida mesma que é pra já. Que é agora. Que já foi. Que está indo. Passou.

Contemplo.

Me calo.

Termino com água salgada escorrendo pelo rosto. E uma vontade inteiramente nova de começar. Recomeçar. Continuar a caminhada sabe-se lá pra onde. Ir apenas. Com esse tanto de imagem e lembrança que, desconfio, fazem quem eu sou.
Sem roteiros.
Sem ensaios.
Sem protagonistas.
Apenas eu e o palco do mundo. Apenas eu e essa multidão que me acompanha por tempo exato mas ainda não definido.
Caminhando, eu vou.

Joice Buzzi

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