que a morte nos encontre vivendo

Que a morte nos encontre vivendo. É o que eu tenho repetido para mim após o luto sentido pela perda dos meus dois primos de forma violenta. E afinal, que morte não é? É sempre susto, é sempre surpresa, é sempre dor, por mais esperada e certa que ela seja.
Que a morte nos encontre vivendo. Epicuro, filósofo grego sugeriu que a morte não é nada, "pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais." Difícil é a espera e como lidar com os desafios que a vida nos propõe, dia após dia. Difícil é lidar com nossas emoções, sempre influenciando nossa forma de enxergar o mundo, as pessoas e ditando nosso comportamento. Viver é um fardo que as vezes é impossível carregar, e talvez por isso tenha tanta gente por aqui: para nos ajudar nessa tarefa. Então, quando a morte nos encontrar, que ela nos encontre com pessoas especiais ao nosso redor, que possam lembrar quem fomos e nos manter vivos em suas memórias. Para isso, que a gente crie muitas memórias para serem lembradas. Que aquele convite para sair e bater um papo não seja adiado pelo cansaço de um dia corrido no trabalho. Que a gente descanse o corpo, descanse a mente, mas não se perca de quem nos ama. Que a gente acorde e viva. Que a preguiça não nos impeça de colocar uma roupa bonita e sair pra ver as estrelas. Que a gente viva para manter esses laços de afeto e de amizade. Que a gente se reconheça no olhar do outro, que está na mesma posição que a gente neste universo. Perdidos. E olhe com mais compaixão para aqueles que se acham encontrados: eles estão mais perdidos ainda, só não sabem. Que a família possa representar mais do que só uma ligação de sangue, que nos ligue também ao amor, que a gente entenda que não se ama só porque se divide herança genética, amamos mesmo por tudo que foi vivido e construído. Quando a morte nos encontrar, que nos encontre vivendo com profundidade a essência de dividir esse espaço-tempo com as pessoas que amamos, mesmo que por tempo limitado. Que nos encontre admirando a natureza, se permitindo o carinho da brisa leve que passa, mesmo nos piores tempos de dor. Porque quando a morte me encontrar, espero que ela se depare com alguém que viveu e entendeu, ainda que na eterna incompreensão de ser, o que isso significava.

Joice Buzzi

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