As pessoas não querem ter um dia tranquilo de trabalho. Orgulham-se, ao contrário, quando chegam ao final do dia concluindo o quanto estão cansadas. O quanto suas rotinas são exaustivas. Reclamam com uma satisfação masoquista. Chegam de sua jornada de trabalho cansadas e satisfeitas. O mundo ocidental atribui valor excessivo ao trabalho técnico que visa uma utilidade. E essa utilidade só é adquirida ao preço da paz psicológica. Não há trabalho digno que não seja aquele que esgote todas as forças do sujeito. Se não cansou, não fez o suficiente. Se não está reclamando, provavelmente estás vivendo uma vida fácil. Não dizer que está cansado é uma afronta a utilidade. E todo mundo quer ser útil. Ser útil é sempre para o outro. Se vivo uma vida solitária e tranquila, não estou produzindo, não estou servindo. No entanto, se me esvazio de minhas forças para produzir alguma coisa, mesmo que essa coisa em essência não seja nada, posso então ter algum valor que justifique minha existência. É triste pensar como as pessoas se esforçam para ficarem cansadas apenas para dizer “olha, eu tenho valor”. É triste como, acostumadas ao turbilhão emocional, chamam de tédio aquele tempo que deveria servir para reflexão, para o restabelecimento de suas forças, para a manutenção da saúde mental. Não conseguem ficar paradas. Sentem-se mal por não serem produtivas, ainda que essa produtividade seja apenas um punhado de atividades que não os elevem. Definido apenas por ações mecânicas repetitivas. Não amadurecem, não se tornam melhores, apenas, ficam cansadas. E cansadas dormem felizes, ou não dormem, mas sentem-se contraditoriamente vivas, ainda que isso custe sua vitalidade.
Joice Buzzi
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