[…] Afinal, se a poesia tem algum papel nesta vida é o de não deixar a linguagem estagnar, deitada em berço esplêndido sobre formas já conquistadas. Sobre clichês. Sobre automatismos. Papel de renovar ou revolucionar o como do dizer. E, com isso, ampliar o repertório geral do o que dizer. Formas novas, qualquer malandro percebe, geram conteúdos novos.

Para a poesia, alargar as fronteiras do expressável. Um poema — um dia, respondi a um repórter que queria saber — é o contrário de uma notícia de jornal. Uma notícia de jornal diz coisas previsíveis e, portanto, possíveis. (…)


Já a poesia fala de coisas que ninguém previa, impossíveis, nadas:


“Tinha uma pedra no meio do caminho” (Drummond). Quem diria que um súbito obstáculo iria sustar a marcha do bardo? “A Carne é Triste e eu Li Todos os Livros” (Mallarmé). Ninguém poderia imaginar que a carne e os livros poderiam sair juntos na mesma notícia. Querem mais uma não-tícia? “Tu pisavas nos astros distraída” (Orestes Barbosa). Ora, vamos e venhamos, mas essa da nêga pisar em estrelas é dose. E distraída, ainda por cima! Não param aí os absurdos. Quando você menos espera, vem um português magrinho, bêbado, que diz, detrás de um bigodinho chaplin-hitleriano: “O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”. Aí é demais. O desrespeito pela santidade da lógica e da realidade é de molde a fazer qualquer leitor, medianamente instruído, torcer o nariz. Nisso, o Augusto de Campos chega e encerra o assunto, mandando aquele abraço para o espaço cósmico: “Abra a janela e veja/o pulsar quase mudo/abraço de anos-luz.” Abraço de anos-luz! Chega. Eu passo.


É pra isso que poesia existe. Pra dizer o que não se diz. E só assim aumentar o campo dos prováveis do dizer. Para bem de todos, da poesia à prosa. Subversivamente. […]

Paulo Leminski, in: Anseios Crípticos

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