"A consciência da morte nos dá uma maravilhosa lucidez. (...) “Resta então a pergunta o que é essencial?” (...) O fato é que sem que o saibamos, todos nós estamos enfermos da morte e é preciso viver a vida com sabedoria para que ela, a vida, não seja estragada pela loucura que nos cerca. Lembrei-me das palavras de Walt Whitman: “Quem anda duzentos metros sem vontade/ anda seguindo o próprio funeral/ vestindo a própria mortalha...”. Pensei então nas minhas longas caminhadas pelo meu próprio funeral, fazendo aquilo que não desejo fazer, fazendo porque outros desejam que eu faça. (...) é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. (...) A vida nunca é terminada. Ela termina sempre sem que tenhamos escrito o último capítulo. O herói do livro ‘Lições de abismo’, de Gustavo Corção, sabendo que não teria mais que seis meses para viver, compara a vida a uma sonata de Mozart que, em vinte minutos, diz tudo o que é para ser dito. Os seus acordes finais não são um fim. O s...
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Mostrando postagens de julho, 2016
Tabacaria
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Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos n...
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Busco desesperadamente a poesia, a palavra que acolhe ou expressa minha angústia. A palavra certa no sentimento certo que é a incerteza de viver. Busco a poesia como quem busca os sedentos ao seu objeto de desejo. Busco o alívio de ser ver refletido em palavras duras, verdadeiras e por vezes cruéis. Busco desesperadamente a poesia para aliviar meus ais. O grito que a poesia recebe em silêncio, o silêncio que ecoa dentro de quem sente o que a poesia tem a dizer. E ela diz muito, mesmo em silêncio. Busco na poesia, talvez em vão, um jeito de ser mais eu para prosseguir, para ver sentido ou aceitar a falta de um. A poesia é bela e dura, lúcida e louca, a poesia é o mundo e eu. Joice Buzzi
"Só de sacanagem"
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"O segredo é colocar-se no lugar do outro. Cuidado, talvez doa." (Dani Santos) Dos tipos de coragem, eis a que eu percebo em escassez: a coragem de pensar no outro antes de si. O que poderia levar ao sentimento de empatia, quando nos colocamos sob a perspectiva do outro e somos capazes de compreender e supor suas emoções a partir da perspectiva dele. Supor, apenas. Porque sentir mesmo, em sua real dimensão, somente quando encararmos os mesmos desafios. E como somos indivíduos com suas próprias especificidades, os desafios nunca serão os mesmos, porque nós não somos também. De qualquer forma, à medida que minha consciência se alargava, busquei observar o mundo com olhos mais atentos, a vida em sociedade principalmente. O convívio com os que estão próximos por ligações genéticas, com os que deliberadamente escolhemos manter por perto e também com aqueles a quem por necessidade de união, construção e desenvolvimento decidimos conviver. Não se sabe ao certo quando decidimos ...
O mundo é uma loucura
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Não há como observar o mundo e não se impressionar com o que vê, sentir compaixão, medo, indignação, angústia e certa empatia. O mundo é uma loucura, quem duvida disso já está louco. Se por um momento nos observamos de cima, percebemos a dose diária de força que temos que tomar para enfrentar o dia que está por vir. O tempo que insiste em passar, a pressa em viver e atender a demanda de felicidade e sucesso que nos pregam todos os dias. Viver bem, viver feliz, sentir prazer, aproveitar o dia, amar e ser amado, são imperativos inspiradores, não fosse a loucura do mundo, ao qual me refiro. Não fossem as injustiças as quais presenciamos e constantemente acompanhamos nos jornais. Gente passando fome, morrendo, roubando, matando. Gente que se considera de "bem" mas maltrata o porteiro, gente que porque usa terno e gravata pensa que tem mais privilégios que os demais, e na verdade, os têm. O dinheiro, esta poderosíssima arma que acaba com o resto de humanidade que ainda reside...