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Mostrando postagens de julho, 2018

A felicidade possível

Só quem está disposto a perder tem o direito de ganhar. Só o maduro é capaz da renúncia. E só quem renuncia aceita provar o gosto da verdade, seja ela qual for. O que está sempre por trás dos nossos dramas, desencontros e trambolhões existenciais é a representação simbólica ou alegórica do impulso do ser humano para o amadurecimento. A forma de amadurecer é viver. Viver é seguir impulsos até perceber, sentir, saber ou intuir a tendência de equilíbrio que está na raiz deles (impulsos). A pessoa é impelida para a aventura ou peripécia, como forma de se machucar para aprender, de cair para saber levantar-se e aprender a andar. É um determinismo biológico: para amadurecer há que viver (sofrer) as machucadelas da aventura e da peripécia existencial. A solução de toda situação de impasse só se dá quando uma das partes aceita perder ou aceita renunciar (e perder ou renunciar não é igual, mas é muito parecido; é da mesma natureza). Sem haver quem aceite perder ou renunciar, jamais haverá ...

A vida bate

Não se trata do poema e sim do homem e sua vida - a mentida, a ferida, a consentida vida já ganha e já perdida e ganha outra vez. Não se trata do poema e sim da fome de vida, o sôfrego pulsar entre constelações e embrulhos, entre engulhos. Alguns viajam, vão a Nova York, a Santiago do Chile. Outros ficam mesmo na Rua da Alfândega, detrás de balcões e de guichês. Todos te buscam, facho de vida, escuro e claro, que é mais que a água na grama que o banho no mar, que o beijo na boca, mais que a paixão na cama. Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns te acham e te perdem. Outros te acham e não te reconhecem e há os que se perdem por te achar, ó desatino ó verdade, ó fome de vida! O amor é difícil mas pode luzir em qualquer ponto da cidade. E estamos na cidade sob as nuvens e entre as águas azuis. A cidade. Vista do alto ela é fabril e imaginária, se entrega inteira como se estivesse pronta. Vista do alto, com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade ...
Se morro universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos - da - ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó - dos - andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo. Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste quarto ouvirás o barulho dos ônibus na rua; uma nova cidade surgirá de dentro desta como a árvore da árvore. Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido. (março, 1971) Ferreira Gullar

No mundo há muitas armadilhas

No mundo há muitas armadilhas e o que é armadilha pode ser refúgio e o que é refúgio pode ser armadilha Tua janela por exemplo aberta para o céu e uma estrela a te dizer que o homem é nada ou a manhã espumando na praia a bater antes de Cabral, antes de Tróia (há quatro séculos Tomás Bequimão tomou a cidade, criou uma milícia popular e depois foi traído, preso, enforcado) No mundo há muitas armadilhas e muitas bocas a te dizer que a vida é pouca que a vida é louca E por que não a Bomba? te perguntam. Por que não a Bomba para acabar com tudo, já que a vida é louca? Contudo, olhas o teu filho, o bichinho que não sabe que afoito se entranha à vida e quer a vida e busca o sol, a bola, fascinado vê o avião e indaga e indaga A vida é pouca a vida é louca mas não há senão ela. E não te mataste, essa é a verdade. Estás preso à vida como numa jaula. Estamos todos presos nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver de fora e nos dizer: é azul. E já o sabíamos, tant...
Qualquer história sobre qualquer pessoa, pode ser interessante, digna que um filme hollywoodiano. Porque qualquer história sobre qualquer pessoa possui a mesma desimportância fundamental. Joice Buzzi
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito. Tenho me fatigado todos os dias Vestindo, despindo e arrastando amor Infância, sóis e sombras. Vou dizer coisas terríveis à gente que passa. Dizer que não é mais possível comunicar-me. (Em todos os lugares o mundo se comprime. Não há mais espaço para sorrir ou bocejar De tédio). As casas estão cheias. As mulheres parindo Sem cessar, os homens amanda sem amar Ah, triste amor desperdiçado Desesperançado amor, serei eu só A revelar o escuro das janelas, eu só Adivinhando a lágrima em pupilas azuis Morrendo a cada instante, me perdendo? Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito. Preparo-me e aceito-me Carne e pensamento desfeitos. Intentemos, Meu pai, o poema desigual e torturado. E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo. Hilda Hilst
"meus queridos: imaginem um mundo de coisas limpas e bonitas, onde a gente não seja obrigado a fugir, fingir ou mentir, onde a gente não tenha medo nem se sinta confuso (não haverá a palavra nem a coisa confusão, porque tudo será nítido e claro), onde as pessoas não se machuquem umas às outras, onde o que a gente é apareça nos olhos, na expressão do rosto, em todos os movimentos — acrescentem a esse mundo os detalhes que vocês quiserem (eu me satisfaço com um rio, macieiras carregadas, alguns plátanos e uma colina — ou coxilha, como se diz aqui no Sul — no horizonte), depois convidem pessoas azuis para se darem as mãos e fazerem uma grande concentração para concretizar esse mundo — e, então, quando ele estiver pronto, novo e reluzente como se tivesse sido envernizado, então nós nos encontraremos lá e eu não precisarei explicar nada, nem contar nenhuma estória escura, porque estórias claras estarão acontecendo à nossa volta e nós estaremos sendo aquilo que somos, sem nenhuma dureza...
"[…] Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida. E quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça… invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação mas não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O movimento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. […]" Sylvia Plath; in Diários
[...] Como é frágil o coração humano — um latejar, um frêmito — um frágil, luzente instrumento de cristal que chora ou canta.) [...] Sylvia Plath
Toda Paixão é labirinto Onde se perdem ateus e santos Onde caravelas e jangadas precárias Desafiam a fúria insensata dos oceanos Sem mapas, sextantes, bússolas ou planos As paixões navegam cegas e loucas Acreditando que a pele é sempre a melhor roupa Enquanto exilam as próprias línguas nos céus de outras bocas Toda paixão quer ser eterna, Como as manhãs que rasgam a noite fria, Como alegria instantânea do sorriso Preso no retângulo da fotografia. Por isso toda paixão odeia o tempo Que vive entre os números do relógio prisioneiro, Desorienta, ilude e faz os amantes acreditarem Que a hora é só uma mentira dos ponteiros. Toda Paixão - Mauro Luis Iasi
"A madrugada, mesmo quando há melancolia e faz frio, nunca deixa de me varar pelos membros, como se me atirasse flechas de um gelo penetrante e rútilo. Descerro as grossas cortinas e busco o primeiro brilho do céu, que mostra que a vida está a irromper. Rosto colado na vidraça, gosto de imaginar que me comprimo o quanto posso contra a muralha espessa do tempo, que sempre se alteia e estira para permitir que outros espaços da vida venham de encontro a nós. Que a mim pois seja dado saborear o momento, antes que ele se propague pelo restante do mundo! Que eu saboreie o que existe de mais viçoso e mais novo! (…)" Excerto de O diário de mistress Joan Martyn (conto) - Contos Completos - Virginia Woolf
“Para além da curva da estrada Talvez haja um poço, e talvez um castelo, E talvez apenas a continuação da estrada. Não sei nem pergunto. Enquanto vou na estrada antes da curva Só olho para a estrada antes da curva, Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. De nada me serviria estar olhando para outro lado E para aquilo que não vejo. Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. Se há alguém para além da curva da estrada, Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. Essa é que é a estrada para eles. Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. Por ora só sabemos que lá não estamos. Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva Há a estrada sem curva nenhuma.” Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
aprender a não levar a sério o sentimento qualquer sentimento sobretudo os de desânimo. entender a instabilidade do sentir não hastear bandeira para qualquer sensação não defender por decreto não levantar a voz contra as paixões incontroláveis silencia, menina tudo passa paciência mesmo quando tudo que tens é justamente impaciência. respeita a volatividade do ser não se apegue tanto ao que sentes não vista apenas uma máscara quando possui outras tantas para lhe cobrir a face Joice Buzzi