"Diz Epicuro: “Se alguém não vê seus bens como vastíssimos, pode ser senhor do mundo e, contudo, é miserável”. Ou, se crês ser melhor enunciado do seguinte modo (com efeito, deve-se fazer isso para que preservemos não as palavras, mas o sentido): “Miserável é quem não se julga felicíssimo, ainda que governe o mundo”. Para que saibas ser essa ideia universal, sendo obviamente ditada pela Natureza, no poeta cômico a encontras: Não é feliz quem não crê sê-lo. Que importa qual seja a tua condição se ela é mal vista por ti? “E então – indagas – se alguém declarasse feliz aquele que é rico da maneira mais torpe e que é senhor de muitos, mas escravo de muitos mais, sua sentença o faz feliz?” Não importa o que se diz, mas o que se sente. E não o que se sente uma vez, mas o que se sente continuamente. Não há razão para temer que um homem indigno atinja coisa de tamanha qualidade: só o sábio está contente com o que é seu. Toda tolice padece de repugnância por si mesma. Adeus" Sêneca...
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Mostrando postagens de dezembro, 2016
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"A sabedoria popular nos ensina que há sempre um aprendizado a ser recolhido depois da dor. É verdade. As alegrias costumam ser preparadas no silêncio das duras esperas. Não é justo que o ser humano passe pelas experiências de calvários sem que delas nasçam experiências de ressurreições." Padre Fábio de Melo in Quem me roubou de mim
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"Desejo também te indicar uma distinção de Crisipo. Que não tenha o sábio precisão de coisa alguma e, contudo, que precise de muitas coisas. “O tolo – diz Crisipo – não precisa de coisa nenhuma; de fato, não sabe para que serve coisa alguma, mas de todas as coisas tem precisão”. O sábio precisa tanto das mãos quanto dos olhos e das muitas coisas indispensáveis para o uso cotidiano, não tem precisão de coisa nenhuma. Ter precisão, com efeito, é da necessidade: nada é necessário para o sábio. Logo, ainda que se baste a si mesmo, o sábio precisa de amigos. Deseja tê-los no maior número possível, não para que viva bem; com efeito, vive também de modo feliz sem amigos. O sumo bem não busca meios externos. É cultivado em casa, é totalmente a partir de si mesmo. Se alguma parte busca fora de si, começa a estar sujeito à Fortuna. “Contudo, qual é o porvir do sábio se é abandonado sem amigos e lançado na prisão ou se é colocado à parte em algum povo estrangeiro, ou se é retido em longa via...
Morango ou cerveja?
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"Morango ou cerveja? Morango e cerveja. Felicidade e infelicidade. Vida e morte. Prazer e sofrimento. Sabedoria trágica: sabeoria de Heráclito. Não se tem escolha, e é o que significa a existência. A realidade é pegar ou largar. A vida é pegar ou largar. E largá-la é pegá-la ainda, ao menos uma última vez, como pegá-la é apenas ainda uma maneira de largá-la... Aquele que só amasse a felicidade não amaria a vida, e com isso se proibiria de ser feliz. O erro é querer selecionar, como nas prateleiras do real. A vida não é um supermercado, cujos clientes seríamos nós. O universo nada tem para nos vender, e nada diferente para oferecer senão ele próprio - nada diferente para oferecer senão tudo." André Comte-Sponville: Bom Dia, Angústia.
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"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar." Clarice Lispector em Um sopro de vida
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"Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora? Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e Deus." Clarice Lispector em Um sopro de vida
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“Para o Ano-Novo – Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois ainda tenho de pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiramente ao coração – que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!” Nietzsche, A Gaia Ciência, §276.
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"Nada de ficar perturbado também com o fato de que somos ridículos, não é verdade? Porque é realmente assim, nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles! (..) Sabem, eu não compreendo como se pode passar ao lado de uma árvore e não ficar feliz por vê-la! Conversar com uma pessoa e não se sentir feliz por amá-la! Oh, eu apenas não sei exprimir... mas, a cada passo, quantas coisas maravilhosas existem, que até o mais desconcertado dos homens as acha belas? Olhem para uma criança, olhem para a alvorada de Deus, olhem para a relva do jeito que cresce, olhem para os olhos que os olham e os amam..." Fiódor Dostoiévski, O Idiota. Tradução: Paulo Bezerra, Editora 34.