Para nós, que não estamos nesse ponto, que estamos muito longe dele, resta-nos aceitar a angústia, habitá-la, e o mais serenamente que pudermos. É apenas um semiparadoxo. Por que cumpriria ter medo de ter medo? Se o sábio é quem já não tem angústias, o filósofo talvez seja quem já não se angustia de tê-las. Comte-Sponville in Bom dia, Angústia
Postagens
Mostrando postagens de setembro, 2018
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
[...] Daí aquilo a que chamei o desespero, a que Freud chama o trabalho do luto, e que não passa da aceitação da vida tal como é, difícil e arriscada, cansativa, angustiante, incerta... Nada está adquirido nunca, nada está prometido nunca, senão a morte. Por isso só se pode escapar à angústia aceitando isso mesmo que ela percebe, que ela recusa e que a transtorna. O quê? A fragilidade de viver, a certeza de morrer, o fracasso ou o pavor do amor, a solidão, a vacuidade, a eterna impermanência de tudo... Essa é a vida mesma, e não há outra. Solitária sempre. Mortal sempre. Pungente sempre. E tão frágil, tão fraca, tão exposta! "Todo contentamento dos mortais é mortal", dizia Montaigne; é isso que a angústia vê bem (pelo que está mais certa do que a diversão), mas não sabe aceitar. Seria preferível a sabedoria que soubesse dizer sim. Mas quem é capaz disso? A diversão, em todo caso, não poderia ser seu sucedâneo: não é dizer sim falar de outra coisa... Nem a saúde, que nada diz...
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Cada vez mais eu guardo a certeza de que o que temos de mais precioso em nossas vidas, são nossas conexões com as pessoas. Ainda que o apego nos faça sofrer quando elas se partem, são essas conexões verdadeiras que fazem essa maluquice toda valer a pena. Eu sou agnóstica ateísta. Amante de filosofia e estudante de psicologia. Entendo a falta de sentido inerente da existência e o fardo da liberdade. Sei que as vezes fica pesado viver. Nossas emoções oscilam o tempo todo e é difícil a beça lidar com a impermanência. É difícil perceber as injustiças sociais e não poder fazer muita coisa além de lamentar. A decadência do homem e o modo como destrói quase tudo o que toca. Eu, inclusive: mesquinha, egoísta, rancorosa. Eu, essa coisa que deseja tudo agora. Pra ontem. Mesmo eu, consciente de tudo isso, consigo nos momentos de inspiração sentir alguma satisfação por experimentar todas essas sensações. Por sentir o amor. A vida é triste, mas as vezes pode ser tão bonita... É belo, por exemplo...
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Se estou só, quero não estar, Se não estou, quero estar só, Enfim, quero sempre estar Da maneira que não estou. Ser feliz é ser aquele. E aquele não é feliz, Porque pensa dentro dele E não dentro do que eu quis. A gente faz o que quer Daquilo que não é nada, Mas falha se o não fizer, Fica perdido na estrada. Fernando Pessoa
O Constante Diálogo
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Há tantos diálogos Diálogo com o ser amado o semelhante o diferente o indiferente o oposto o adversário o surdo-mudo o possesso o irracional o vegetal o mineral o inominado Diálogo consigo mesmo com a noite os astros os mortos as ideias o sonho o passado o mais que futuro Escolhe teu diálogo e tua melhor palavra ou teu melhor silêncio. Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos. Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Mas era apenas isso, era isso, mais nada? Era só a batida numa porta fechada? E ninguém respondendo, nenhum gesto de abrir: era, sem fechadura, uma chave perdida? Isso, ou menos que isso uma noção de porta, o projecto de abri-la sem haver outro lado? O projecto de escuta à procura de som? O responder que oferta o dom de uma recusa? Como viver o mundo em termos de esperança? E que palavra é essa que a vida não alcança? Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
A eterna canção: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveitá-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para não fazer absolutamente nada — quer dizer, para sentir que não estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. Aí, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse... Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida. Que sentimento tive da vida, este ano? Que escavação tentei em suas jazidas? A...
Canto para a minha morte
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Eu sei que determinada rua que eu já passei Não tornará a ouvir o som dos meus passos. Tem uma revista que eu guardo há muitos anos E que nunca mais eu vou abrir. Cada vez que eu me despeço de uma pessoa Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez A morte, surda, caminha ao meu lado E eu não sei em que esquina ela vai me beijar Com que rosto ela virá? Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer? Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque? Na música que eu deixei para compor amanhã? Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro? Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada, E que está em algum lugar me esperando Embora eu ainda não a conheça? Vou te encontrar vestida de cetim, Pois em qualquer lugar esperas só por mim E no teu beijo provar o gosto estranho Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo morte, morte, morte Que talvez seja o segredo desta vida Morte, m...
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
"O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, aprendizagem de desaprender. Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu." Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte - de que ela é terrível – que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves ou nos inquietarmos ou nos afligirmos, jamais consideremos outra coisa a causa, senão nós mesmos – isto é: as nossas próprias opiniões. Epiteto in O Manual de Epiteto