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Mostrando postagens de junho, 2018
a única solidão é sono ou morte nós não éramos inteligentes o bastante gentis com os outros e cruéis para si mesmo quando pedimos a nós mesmos por misericórdia e isso foi negado a mais sagrada privacidade permanece nos esperando e tudo que foi incompreendido ou abandonado se reunirá deixe meu fracasso ser sua sorte isso que foi um quebrado e descuidado erro que seja conhecido que saber sua própria morte é morrer duas vezes uma vez realmente e então, quase nada que seja conhecido que não há nada tão feio em tudo que é tangente como a besta humana um truque definido contra o sangue de sua alma que seja conhecido que a solidão é a única misericórdia e a única amante que seja conhecido que um homem não precisa ser Cristo para ser crucificado que seja conhecido que um homem pode ser crucificado a cada dia a cada momento a cada respiração de sono e vigília e então ser atormentado novamente que seja conhecido que um homem pode morrer e morrer e morrer e morrer e ainda sentir a dor e s...
"Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até o rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás disso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito." Bernardo Soares / Fernando Pessoa; Livro do Desassossego
"Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata, Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo, Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés, Calcar, calcar, calcar até não sentir. Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis, Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou." Álvaro de Campos / Fernando Pessoa; in Passagem das Horas (fragmento)
A poesia não é útil, não serve pra nada… no entanto é justamente por isso que escrevemos ou lemos poesia, é o que nos deixa vivos. É a essência de tudo! Nós não precisamos servir para nada, não precisamos ter planos de carreira, lucro, poupança, carro, casa, ou acumular. Não precisamos servir para nada, nada, nada, nada, NADA! A poesia é o último refúgio, o primo pobre da arte, é o livro que se recolhe do cotidiano, o descarte, o despeito, é a veia aberta, escancarada, apaixonada do mundo, jorrando sangue em via pública. E eu que não sou boba, sou poeta! E você? Pilar BU.  09/10/13
Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta Que hoje eu me gosto muito mais Porque me entendo muito mais também E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora É se respeitar na sua força e fé E se olhar bem fundo até o dedão do pé Eu apenas queira que você soubesse Que essa criança brinca nesta roda E não teme o corte de novas feridas Pois tem a saúde que aprendeu com a vida" Gonzaguinha
Além da Terra, além do Céu, no trampolim do sem-fim das estrelas, no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas. Além, muito além do sistema solar, até onde alcançam o pensamento e o coração, vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política, o verbo sempreamar, o verbo pluriamar, razão de ser e de viver. __Carlos Drummond de Andrade, Além da Terra, além do Céu

A beleza de uma mulher

Uma roupa desacertada, uns dentes ligeiramente tortos, uma mediocridade requintada da alma – estes são os tipos de detalhes que fazem uma mulher real, viva. As mulheres que vemos nos cartazes ou em revistas de moda – aquelas que todas as mulheres tentam imitar hoje em dia – como é que podem ser atraentes? Elas não têm realidade própria; são apenas a soma de um conjunto de regras abstractas. Elas não nascem de corpos humanos; elas nascem prontas a servir a partir de computadores. Milan Kundera, in 'A Brincadeira'
"Se me der um beijo eu gosto. Se me der um tapa eu brigo. Se me der um grito não calo. Se mandar calar mais eu falo. Mas se me der a mão, claro, aperto. Se for franco, direto e aberto. Tô contigo amigo e não abro. Vamos ver o diabo de perto. Mas preste bem atenção, seu moço, não engulo a fruta e o caroço. Minha vida é tutano, é osso. Liberdade virou prisão. Se é amor, deu e recebeu. Se é suor, só o meu e o teu. Verbo eu pra mim já morreu. Quem mandava em mim nem nasceu." Gonzaguinha

leminski

Bom dia, poetas velhos. Me deixem na boca o gosto dos versos mais fortes que não farei. Dia vai vir que os saiba tão bem que vos cite como quem tê-los um tanto feito também, acredite. Leminski
Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra. Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando ...

O anjo mais velho

Metade de mim Agora é assim De um lado a poesia o verbo a saudade Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim E o fim é belo incerto… depende de como você vê O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só Só enquanto eu respirar Vou me lembrar de você Só enquanto eu respirar… Teatro Mágico em O anjo mais velho
“A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu e ela não perderá o que merece ser salvo.” Eduardo Galeano
“Tudo é vário. Temporário. Efêmero. Nunca somos, sempre estamos.” Chico Buarque; em Leite Derramado

Régio

Saio de mim para quem sou e jamais chego ao destino. No caminho do ser meu gozo é me perder. Meu coração só tem morada onde se acende um outro peito. Meu anjo está cego, meu poeta está mudo, meu guru ficou amnésico. O poeta sabia que não ia por ali. Eu vou por onde não sei. Meu aqui é sempre além. Mia Couto, em Idades Cidades Divindades

Especulações em torno da palavra homem

Mas que coisa é homem, que há sob o nome: uma geografia? um ser metafísico? uma fábula sem signo que a desmonte? Como pode o homem sentir-se a si mesmo, quando o mundo some? Como vai o homem junto de outro homem, sem perder o nome? E não perde o nome e o sal que ele come nada lhe acrescenta nem lhe subtrai da doação do pai? Como se faz um homem? Apenas deitar, copular, à espera de que do abdômen brote a flor do homem? Como se fazer a si mesmo, antes de fazer o homem? Fabricar o pai e o pai e outro pai e um pai mais remoto que o primeiro homem? Quanto vale o homem? Menos, mais que o peso? Hoje mais que ontem? Vale menos, velho? Vale menos morto? Menos um que outro, se o valor do homem é medida de homem? Como morre o homem, como começa a? Sua morte é fome que a si mesma come? Morre a cada passo? Quando dorme, morre? Quando morre, morre? A morte do homem consemelha a goma que ele masca, ponche que ele sorve, sono que ele brinca, incerto de estar perto, longe? Morre, sonha o homem? Por que...

Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. Para ti eu criarei um dia puro Livre como o vento e repetido Como o florir das ondas ordenadas. Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”
"[…] No dia em que achei Deus, encontrei a paz e ao mesmo tempo percebi que de certa maneira não haveria mais paz em mim. Descobri que paz interior só se conquista com o sacrifício da paz exterior. Era preciso fazer alguma coisa pelos outros. O mundo está cheio de sofrimento, de gritos de socorro. Que tinha eu feito até então para diminuir esse sofrimento, para atender a esses apelos? Eu via a meu redor pessoas aflitas que para se salvarem esperavam apenas uma mão que as apoiasse, nada mais que isso. E Deus me dera duas mãos! […]" Érico Veríssimo; in: Olhai os Lírios do Campo
a esperança que ficou na caixa desconfio ficou mesmo é em meu coração Joice Buzzi
[...] Nada depois, e só eu e a minha tristeza, E a grande cidade agora cheia de sol E a hora real e nua como um cais já sem navios, E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira, Traça um semicírculo de não sei que emoção No silêncio comovido da minh'alma…" Álvaro de Campos / Fernando Pessoa; “Ode Marítima’ (fragmento); in Poesias de Álvaro de Campos