ser
Eu, incontida em mim, quero desesperadamente ser. Ser menos domesticada, mais original. Ser por mim e não mais pelos outros. Ser a coragem de se assumir louca e santa, ingenuamente pura e pecadora. Ser poeta, ser amante da perturbadora vida, que às vezes triste mas sempre bela. Ser o que fui destinada pelas inclinações dos meus arrepios. A flor, o céu, o canto dos pássaros, ser comovida pelos elementos da vida exterior que dialogam com meu interior. Ser mar nessa vastidão de pequenos lagos que não se permitem transbordar. Ir além das bordas, dos limites, se não for possível literalmente, que ao menos eu sinta metaforicamente a liberdade de ser. Que eu seja, que eu não tenha medo de afastar os outros seres sendo quem sou. Assim, quem ficar, ficará pelo gosto de me ver sendo. Mas antes de tudo, que eu goste de me ver assim, para eu não me ofender com quem não ficar. Que eu não me forje, não me engane, não me sabote. Que eu não precise me apequenar para caber no mundo que os outros criar...