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Mostrando postagens de janeiro, 2021

Olhos nos olhos

Tu me olha nos olhos A sensação de enxergar alguém observando em mim o que não vejo assusta Desvio porque não sustento Lembrar da parte de mim que ignoro Por puro acidente anatômico Teu olhar no meu é feito espelho sem reflexo Vivo tão dentro de mim mesma Tão certa de que sei dos abismos Das torrentes, dos mares, das formas Das cores e das sensações Das causas e das origens Que esqueço o que de mim não posso saber Mas tu, quando me olha nos olhos Sabes E me lembras Sabes e inventas também Com o que de ti se projeta pra fora Sustentar um olhar que demora É autorizarmos-nos sermos vistos sem as rédeas do nosso controle ideal Você vê em mim o que quer E eu também o poderia fazer E o faço Mas quando me olha nos olhos Sinto forte este medo de não me reconhecer Na imagem que se apresenta a você Joice Buzzi

A poesia se esfrega nos seres e nas cousas

Nunca sentiste uma força melodiosa Cercando tudo que teus olhos vêem, Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem? Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas Deparando com um campo devoluto Semelhante a uma virgem esquecida? Num circo, nunca se apoderou de ti, um amargor sutil Vendo animais amestrados E logo depois te mostrarem Seres humanos imitando um reptil? Nunca reparaste na beleza de uma estrada Cortando as carnes do solo Para unir carinhosamente Todos os homens, de um a outro pólo? Nunca te empolgastes diante de um avião Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio, Ou de qualquer outra invenção? Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia Ao mistério da noite, Na extensão da tua dor E na delícia da tua alegria? Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha Para que vejas com toda a amplitude A grandeza infindável da poesia que não percebes E que é tamanha! Adalgisa Nery

Os lados

Há um lado bom em mim. O morto não é responsável Nem o rumor de um jasmim. Há um lado mau em mim, Cordial como um costureiro, Tocado de afetações delicadíssimas. Há um lado triste em mim. Em campo de palavra, folha branca. Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos, Sois em mim o lado irreal. Há um lado em mim que é mudo. Costumo chegar sobraçando florilégios, Visitando os frades, com saudades do colégio. Um lado vulgar em mim, Dispensando-me incessante de um cortejo. Um lado lírico também: Abelhas desordenadas de meu beijo; Sei usar com delicadez um telefone, Nâo me esqueço de mandar rosas a ninguém. Um animal em mim, Na solidão, cão, No circo, urso estúpido, leão, Em casa, homem, cavalo… Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio Como um discurso, Um lado frágil, verde-úmido. Há um lado comercial em mim, Moeda falsa do que sou perante o mundo. Há um lado em mim que está sempre no bar, Bebendo sem parar. Há um lado em mim que já morreu. Às vezes penso se esse lado não sou eu. Paulo M...

Os três mal-amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios:...

À Beira do Mar Aberto

"E de novo me vens e me contas do mar aberto das costas de tua terra, dovento gelado soprando desde o pólo, nos invernos, sem nenhuma baía,nenhuma gaivota ou albatroz sobrevoando rasante o cinza das águas paramergulhar, como certa vez, em algum lugar, rápido iscando um peixe nobico agudo, mas essas outras águas que lembro eram claras verdes, haviasol e acho que também um reflexo de prata no bico da ave no momentojusto do mergulho, nessas águas de que me falas quando me tomas assime me levas para histórias ou caminhadas sem fim não há verde nem éclaro, o sol não transpõe as nuvens, e te imagino então parado sozinhoentre a faixa interminável de areia, o vento que bate em teu rosto, asmãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolos, o vento enovamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que não me olhaagora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se emminhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto maisnu que sempre, à beira-mar, c...