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Mostrando postagens de agosto, 2018
"[...] Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para rostos inocentes. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela." Anais Nïn

CONSELHOS PARA EU MESMA QUANDO ESTIVER ESTRESSADA

Eu sei que você sabe que o mundo é hostil, que tem muito filho da puta atrapalhando o caminho das outras. Eu sei que as pessoas te decepcionam, te irritam quando não fazem o que você esperava delas - e o que esperava delas era o que você considerava mínimo, baseado em tudo que já lhes disseram, em tudo que você sabe que merece. Eu sei, tem gente que joga palavras ao vento. Tem gente injusta, ingrata, confusa, que te cobra mais do que supostamente oferece. Você mesma, uma delas, algumas vezes. A irritação vem da culpa disso, também. Que jeito há no mundo, afinal? Todos temos nossas sombras e precisamos conviver com elas. Atravancarão seu caminho, eventualmente. Te irritarão por serem tão imaturas, tão desrespeitosas. Por não cumprirem normas básicas de convivência que tornaria tudo um pouco melhor. A faculdade te irrita, o ambiente de trabalho te irrita, a família te irrita, os preconceitos e dogmas que mais excluem do que agregam te irritam, a desinformação te irrita. Uma pancada de co...

A Dança

Eu lhe mandei meu convite, a nota inscrita na palma da minha mão pela chama da vida. Não de um salto gritando: " Sim , é isso que eu quero! Vamos em frente!" Apenas se levante em silêncio e dance comigo. Mostre-me como você segue seus desejos mais profundos, descendo em espiral em direção à dor dentro da dor, e lhe mostrarei como eu me volto para dentro e me abro para fora para sentir o beijo do mistério, doces lábios sobre os meus, todos os dias. Não me diga que você quer encerrar o mundo inteiro no seu coração. Mostre-me como você evita cometer outra falta sem se desesperar quando sofre uma agressão e tem medo de não receber amor. Conte-me uma história sobre quem você é, e veja quem eu sou nas histórias que estou vivendo. E juntos nos lembraremos que cada um de nós sempre tem uma escolha. Não me diga que as coisas serão maravilhosas...um dia. Mostre-me que você é capaz de correr o risco de ficar completamente em paz. Totalmente à vontade com a maneir...

ROLA MUNDO

Vi moças gritando numa tempestade. O que elas diziam o vento largava, logo devolvia. Pávido escutava, não compreendia. Talvez avisassem: mocidade é morta. Mas a chuva, mas o choro, mas a cascata caindo, tudo me atormentava sob a escureza do dia, e vendo, eu pobre de mim não via. Vi moças dançando num baile de ar. Vi os corpos brandos tornarem-se violentos e o vento os tangia. Eu corria ao vento, era só umidade, era só passagem e gosto de sal. A brisa na boca me entristecia como poucos idílios jamais o lograram; e passando, por dentro me desfazia. Vi o sapo saltando uma altura de morro; consigo levava o que mais me valia. Era algo hediondo e meigo: veludo, na mole algidez parecia roubar para devolver-me já tarde e corrupta, de tão babujada, uma velha medalha em que dorme teu eco. Vi outros enigmas à feição de flores abertas no vácuo. Vi saias errantes demandando corpos que em gás se perdiam, e assim desprovidas mais esvoaçavam, tornando-se roxo, azul de longa espera, negro de mar negro....
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cum...
"Conta-se no Oriente esta história, que já não sei se é de origem budista ou taoísta. Um monge caminha na floresta, pensativo e preocupado. É apenas um monge comum, não um sábio, não um liberto vivo: não conheceu o despertar, não conheceu a iluminação. Por que está preocupado? Porque ficou sabendo que seu mestre - que era, por sua vez, um sábio, um liberto vivo, um desperto -, que seu mestre, portanto, morreu, o que não é grave, assassinado a pauladas por salteadores, o que tampouco o é. Não há a menor necessidade de ser um sábio para compreender que é preciso morrer mais dia menos dia e que a causa não importa muito, que isso é apenas impermanência e vacuidade. Qualquer monge que seja sabe isso. Por que, então, essa fronte preocupada, essa perplexidade, essa inquietude vaga? Porque uma testemunha, que viu a cena, contou ao nosso monge que o sábio, durante as pauladas, gritara atrozmente. E era isso que perturbava o n...
"Não esqueçamos, porém, que a medicina só é válida para os doentes, e que não se poderia considerar como tal todo indivíduo que teme morrer, sofrer ou não ser amado. Onde está o sintoma? onde está a patologia? Ele sofrerá de fato, morrerá de fato, e jamais será amado, com toda evidência, como o teria desejado. E então? Resta-lhe enfrentar isso, aceitar isso, superar isso, se puder, em vez de fugir. Sofre com isso? Mas onde se viu que todo sofrimento seja patológico? Que todo sofrimento seja nefasto? Ele o é, se impede viver ou agir. Mas se ele ajuda? Se impele a isso? Se é fator de revolta ou de combate? Vai-se renunciar a pensar, porque isso angustia? A viver, porque isso causa medo? A amar, porque isso causa dor? Aceitemos, ao contrário, tanto quanto pudermos, e o podemos apesar de tudo, ao menos um pouco, ao menos às vezes, e esse é justamente o sinal de nossa sanidade, aceitemos em vez de sofrer e de tremer. ...
“Que a vida seja decepcionante, sempre decepcionante, no fundo é isso que ela nos ensina de mais claro. Não, por certo, que nela não haja alegrias nem prazeres. Mas não os que esperávamos, ou não da mesma forma, ou que não poderiam, quando estão presentes, dar-nos a felicidade que deles esperávamos quando não estavam presentes, quando nos faltavam. "Como eu seria feliz se...", dizia-se consigo mesmo. Mas nenhum se é real, e nenhuma felicidade talvez. Daí esses bafios azedos, amiúde, essas flatulências do coração ou da alma, como uma náusea vaga... Releiam os poemas de amor que vocês escreveram, outrora, ou aqueles que lhes enviaram... E releiam, da mesma forma, os discursos de nossos políticos, ou mesmo as obras-primas de nossos escritores. Pensem em sua juventude sonhadora, em todos aqueles sonhos e projetos! Mesmo realizados, já não são a mesma coisa. E o sucesso é amargo quase tanto quanto a derrota. Vaidade de tudo: verdade de tudo. Como não se ficaria decepcionado, pois ...
"Nas Confissões, por exemplo, Santo Agostinho explica que o tempo, numa primeira aproximação, é a sucessão do passado, do presente e do futuro. Mas o passado não é, observa Santo Agostinho, uma vez que já não é; o futuro não é, uma vez que ainda não é. Logo, só resta o presente... Mas, se o presente permanecesse presente, não seria o tempo: seria a eternidade. "De modo que o que nos autoriza a afirmar que o tempo existe é o fato de que ele tende a não mais existir", conclui Santo Agostinho50. Eu digo, ao contrário, que, se o presente permanece presente, o tempo e a eternidade são uma só e mesma coisa: cá estamos. Poder-se-ia objetar que o início da nossa conferência é agora passado... Sim; mas, quando comecei esta conferência, o presente era presente; ele continuava a sê-lo quando terminei minha conferência; e continua sendo agora, enquanto respondo às perguntas de vocês. O presente permanece presente, de modo que a única coisa...
"[…] Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida. E quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça… invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação mas não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O movimento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. […]" Sylvia Plath; in Diários

Os nossos eus

Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa. Virginia Woolf, in "Orlando"
Para Joice Falávamos de poesia como quem via os próprios rostos. Alongavamos nuvens rosas aos nossos lados. Num elmo do destino Uma serena noite soprada uma cantiga doce de um amanhã por vir. Bebiamos na sombra do instante e do mito. Somos poetas loucos que galopam na madrugada sem fim N'Alvorada de sons e versos Envocavamos nossos futuros queridos através do poder da palavra encantada. Um folclore de máscaras, Um vulto de vidas e vertigens casadas com cantos e confissões. noites pares. O incenso de nossas histórias nos ares. A sombra refém de luz era livre para dançar Assim como a palavra: objeto do poeta. Distância. Afeto. Ternura. Contato. Palavra. Os poetas loucos estendem a madrugada além dos limites dos que dormem Poetas lúcidos de sangue lúcido. Sabemos das alegorias do fim e da despedida. Mas não deixamos de bailar na sombra da palmeira; Nem de ouvir a poesia dos pássaros; Marcamos as ruas com nossas presenças, em velocidade e trajeto. Sim, eram noites de Glória "Na p...