"Nas Confissões, por exemplo, Santo Agostinho explica que o tempo, numa primeira aproximação, é a sucessão do passado, do presente e do futuro. Mas o passado não é, observa Santo Agostinho, uma vez que já não é; o futuro não é, uma vez que ainda não é. Logo, só resta o presente... Mas, se o presente permanecesse presente, não seria o tempo: seria a eternidade. "De modo que o que nos autoriza a afirmar que o tempo existe é o fato de que ele tende a não mais existir", conclui Santo Agostinho50. Eu digo, ao contrário, que, se o presente permanece presente, o tempo e a eternidade são uma só e mesma coisa: cá estamos. Poder-se-ia objetar que o início da nossa conferência é agora passado... Sim; mas, quando comecei esta conferência, o presente era presente; ele continuava a sê-lo quando terminei minha conferência; e continua sendo agora, enquanto respondo às perguntas de vocês. O presente permanece presente, de modo que a única coisa que nos autoriza a afirmar que o tempo é, é que ele não cessa de se manter. É o que Spinoza chama de duração: não a soma de um passado e de um futuro, que só têm uma existência imaginária, mas a continuação indefinida de uma existência51, em outras palavras a perduração do presente. Nós compartilhamos duas horas de presente: compartilhamos duas horas de eternidade. Já estamos no Reino, já salvos. É por isso que não há nada mais absurdo do que esperar a eternidade - pois já estamos nela."
André Comte-Sponville in A Felicidade, Desesperadamente
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