Despir o outro de como quer ser visto Despir-se daquilo que o outro quer ver Vestir o desejo do outro despir. Despir o desejo de quem se vestiu Daquilo que esperava mostrar – disfarçando-se, vestindo-se O tempo gasto para despir o corpo que se veste para o outro O tempo gasto para vestir tudo o que vai ser tirado, Quando o outro não quer vestido Mas o que se vestiu quer ser despido. Vestir o outro de quereres, Despir a carência de todos. Foder, Todo mundo nu ou vestido, consigo e mentindo. Fernanda Young
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Mostrando postagens de agosto, 2019
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"Oi, eu estou bem aqui na sua frente, mas você insiste em não me ver. Tudo bem, opção sua, cada um enxerga o que quer. O problema é quando você, sem ter idéia de como sou, resolve dar a sua visão sobre mim. Talvez você não se enxergue também, antes de mais nada – e assim me tire por parecida contigo. Errando completamente. Para começar, eu faço questão de ver as pessoas ao meu redor, e isso faz toda a diferença do mundo. Percebo que todos têm algo de especial, estando aí a graça. Percebo belezas que não são minhas, estando aí o prazer. Percebo inclusive você, parado bem na minha frente, desviando seu olhar para lá e para cá, nervoso com a minha presença, estando aí o ridículo. Veja bem, não há o que temer em mim. Não quero nada que seja seu. E não sou nada que você também não seja, pelo menos um pouquinho. Você não precisa gostar de mim para me enxergar, mas precisa me enxergar para não gostar de mim. Ou gostar, e talvez seja exatamente isso que você tema. Embora isso não faça sen...
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Sou cheia de manias. Tenho carências insolúveis. Sou teimosa. Hipocondríaca. Raivosa, quando sinto-me atacada. Não como cebola. Só ando no banco da frente dos carros. Mas não imponho a minha pessoa a ninguém. Não imploro afeto. Não sou indiscreta nas minhas relações. Tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar os seus segredos. Então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira ser incomodado. Chateio só aqueles que não me acham uma chata, por isso me querem ao seu lado. Acho sim, que, às vezes, dou trabalho. Mas é como ter um Rolls Royce: se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat. Fernanda Young
Para o Pequeno Príncipe por Fernanda Young
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"Nossa, há quanto tempo… Como vão as coisas no seu pequeno planeta? Aqui, no meu, andam imensamente estranhas – muito baobá para pouca flor, se é que você entende meus simbolismos. Quem sempre fala de você é aquela ex-miss que vivia chorando por sua causa, lembra? Ela me contou da sua amizade com a Raposa. Príncipe, como você é meu amigo de infância, não posso deixar de alertá-lo. Cuidado com a Raposa. Ela parece uma coisa, mas é outra. Faz-se de fofa e é uma cobra, uma chantagista. Quando a conheci, ela disse que não podia conversar comigo, pois não sabia quem eu era. “A gente s conhece bem as coisas que cativou”, ela falou, toda insinuante. Respondi que, se nós duas nos cativássemos, ela ficaria triste quando eu fosse embora. Foi quando saquei que ela queria ter um cacho comigo, pois a Raposa pegou no meu cabelo – eu estava loira na época – e disse que tudo bem, porque ela olharia os campos de trigo e se lembraria de mim. Marcamos um encontro para o dia seguinte, às 4. E ela me ...
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a única solidão é sono ou morte nós não éramos inteligentes o bastante gentis com os outros e cruéis para si mesmo quando pedimos a nós mesmos por misericórdia e isso foi negado a mais sagrada privacidade permanece nos esperando e tudo que foi incompreendido ou abandonado se reunirá deixe meu fracasso ser sua sorte isso que foi um quebrado e descuidado erro que seja conhecido que saber sua própria morte é morrer duas vezes uma vez realmente e então, quase nada que seja conhecido que não há nada tão feio em tudo que é tangente como a besta humana um truque definido contra o sangue de sua alma que seja conhecido que a solidão é a única misericórdia e a única amante que seja conhecido que um homem não precisa ser Cristo para ser crucificado que seja conhecido que um homem pode ser crucificado a cada dia a cada momento a cada respiração de sono e vigília e então ser atormentado novamente que seja conhecido que um homem pode morrer e morrer e morrer e morrer e ainda sentir a dor e s...
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Ando tão a flor da pele Que qualuqer beijo de novela me faz chorar Ando tão a flor da pele Que teu olhar flor na janela me faz morrer Ando tão a flor da pele Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser Ando tão a flor da pele Que a minha pele tem o fogo do juízo final Um barco sem porto Sem rumo sem vela Cavalo sem cela Um bicho solto um cão sem dono um menino um bandido Ás vezes me preservo Noutras suicido Zeca Baleiro - Flor da pele
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As palavras estão muito ditas e o mundo muito pensado. Fico ao teu lado. Não me digas que há futuro nem passado. Deixa o presente — claro muro sem coisas escritas. Deixa o presente. Não fales, Não me expliques o presente, pois é tudo demasiado. Em águas de eternamente, o cometa dos meus males afunda, desarvorado. Fico ao teu lado. Cecília Meireles
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Tenho quebrado copos é o que tenho feito raramente me machuco embora uma vez sim uma vez quebrei um copo com as mãos era frágil demais foi o que pensei era feito para quebrar-se foi o que pensei e não: eu fui feita para quebrar em geral eles apenas se espatifam na pia entre a louça branca e os talheres (esses não quebram nunca) ou no chão espalhando-se então com um baque luminoso tenho recolhido cacos tenho observado brevemente seu formato pensando que acontecer é irreversível pensando em como é fácil destroçar tenho embrulhado os cacos com jornal para que ninguém se machuque como minha mãe me ensinou como se fosse mesmo possível evitar os cortes (mas que não seja eu a ferir) tenho andado a tentar não me ferir e não ferir os outros enquanto esgoto o estoque de copos mas não tenho quebrado minhas próprias mãos golpeando os azulejos não tenho passado a noite deitada no chão de mármore estudando as trocas de calor não tenho mastigado o vidro procurando separar na boca o sabor do sangue o ...
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Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua a impossibilidade de ser humano Maupassant enlouquecendo num barco a remos Dostoiévski de pé contra o muro para ser fuzilado Grane fora da popa de um navio indo em direção à hélice a impossibilidade Sylvia com a cabeça no forno como uma batata assada Harry Crosby saltando naquele Sol Negro Lorca assassinado na estrada pelas tropas espanholas a impossibilidade Artaud sentado num banco de hospício Chatterton bebendo veneno de rato Shakespeare um plagiário Beethoven com uma corneta no ouvido contra a surdez a impossibilidade a impossibilidade Nietzsche enlouquecendo completamente a impossibilidade de ser humano todos demasiados humanos esse respirar para dentro e par...
Defesa da Alegria
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Defender a alegria como uma trincheira defendê-la do escândalo e da rotina da miséria e dos miseráveis das ausências transitórias e das definitivas defender a alegria por princípio defendê-la do pasmo e dos pesadelos assim dos neutrais e dos neutrões das infâmias doces e dos graves diagnósticos defender a alegria como bandeira defendê-la do raio e da melancolia dos ingênuos e também dos canalhas da retórica e das paragens cardíacas das endemias e das academias defender a alegria como um destino defendê-la do fogo e dos bombeiros dos suicidas e homicidas do descanso e do cansaço e da obrigação de estar alegre defender a alegria como uma certeza defendê-la do óxido e da ronha da famigerada patina do tempo do relento e do oportunismo ou dos proxenetas do riso defender a alegria como um direito defendê-la de Deus e do Inverno das maiúsculas e da morte dos apelidos e dos lamentos do azar e também da alegria Mario Benedetti, poeta uruguaio, In: Lugares mal situados (Defensa de la Alegria)
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“Que a televisão prejudica o movimento da pracinha Gerônimo Monteiro, em todos os Cachoeiros de Itapemirim, não há dúvida. Sete horas da noite era hora de uma pessoa acabar de jantar, dar uma volta pela praça para depois pegar a sessão das 8 no cinema. Agora todo mundo fica em casa vendo uma novela, depois outra novela. (…) Mas muito lhe será perdoado, à TV, pela sua ajuda aos doentes, aos velhos, aos solitários.Na grande cidade – num apartamentinho de quarto e sala, num casebre de subúrbio, numa orgulhosa mansão – a criatura solitária tem nela a grande distração, o grande consolo, a grande companhia. Ela instala dentro de sua toca humilde o tumulto e o frêmito de mil vidas, a emoção, o “suspense”, a fascinação dos dramas do mundo. A corujinha da madrugada não é apenas a companheira de gente importante, é a grande amiga de pessoa desimportante e só. Da mulher velha, do homem doente… é a amiga dos entrevados, dos abandonados, dos que a vida esqueceu para um canto… ou dos que estão parad...
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O que levava essas pessoas à sua sinistra atividade? A maldade? Claro, mas também seu desejo de ordem. Porque o desejo de ordem quer transformar o mundo humano num reino inorgânico em que tudo acontece, tudo funciona, tudo é submetido a uma vontade impessoal. O desejo de ordem é ao mesmo tempo desejo de morte, porque a vida é perpétua violação da ordem. Ou, inversamente, o desejo de ordem é o pretexto virtuoso pelo qual a raiva do homem pelo homem justifica suas perversidades. A valsa dos adeuses, Milan Kundera, p. 93. Editora Nova Fronteira, 1989.
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A censura, que a princípio só atingiu os meios de comunicação, logo se estendeu aos textos escolares, às letras das canções, aos roteiros dos filmes e às conversas privadas. Havia palavras proibidas por decreto militar, como “companheiro”, e outras que não se diziam por precaução, apesar de nenhum decreto tê-las eliminado do dicionário, como liberdade, justiça e sindicato. Alba perguntava-se de onde teriam saído tantos fascistas de um dia para o outro, porque, na longa trajetória democrática de seu país, nunca os havia notado, exceto alguns exaltados durante a guerra, que, por macaquice, vestiam camisas negras e desfilavam com o braço para o alto, em meio às gargalhadas e às vaias dos transeuntes, sem que tivessem qualquer papel relevante na vida nacional. Tampouco se explicava a atitude das Forças Armadas, cujos membros em sua maioria provinham das classes média e operária, e que, historicamente, tinham estado mais perto da esquerda do que da extrema direita. Não compreendeu o estado ...
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Éramos três velhos amigos na praia quase deserta. O sol estava bom; e o mar, violento. Impossível nadar: as ondas rebentavam lá fora, enormes, depois avançavam sua frente de espumas e vinham se empinando outra vez, inflando, oscilantes, túmidas, azuis, para poucar de súbito na praia. Mal a gente entrava no mar a areia descaía de chofre, quase a pique, para uma bacia em que não dava pé; alguns metros além havia certamente uma plataforma de areia onde o mar estourava primeiro. Demos alguns mergulhos, apanhamos fortes lambadas de onda e nos deixamos ficar conversando na praia; o sol estava bom. Éramos três velhos amigos e cada um estava tão à vontade junto dos outros que não tínhamos o sentimento de estar juntos, apenas estávamos ali. Talvez há 10 ou 15 anos atrás tivéssemos estado os três ali, ou em algum outro lugar da praia, conversando talvez as mesmas coisas. Certamente éramos os três mais magros, nossos cabelos eram mais negros… Mas que nos importava isso agora? Cada um vivera para ...
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Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa. Virginia Woolf, in "Orlando"
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Mas é como quando minha médica me contou a história daqueles dois irmãos cujo pai era um alcoólatra mau. Um irmão se tornou carpinteiro quando adulto e nunca bebia. O outro terminou sendo um bebedor tão mau quando o pai. Então, acho que somos quem somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas. Acho que, se um dia eu tiver filhos e eles ficarem perturbados, não vou dizer a eles que as pessoas passam fome na China nem nada assim, porque isso não mudaria o fato de que eles estão transtornados. E mesmo que alguém esteja muito pior, isso não muda o fato de que você tem o que você tem. É bom e mau. É como o que minha irmã disse quando eu estive no hospital por um tempo. Ela disse que estava realmente preocupada em ir para a faculdade, e considerando que eu estava melhorando, ela se sentia i...
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O céu brilha, azul e côncavo, sobre a minha cabeça. Há-de estar cheio de anjos sem asas, como os que vi, numa manhã sem outro milagre, há muitos anos, na cúpula da Capela Sistina. Sei disso porque daqui onde estou os sinto a respirar. Penso em todos os lugares que gostaria de visitar contigo. No que gostaria de fazer contigo – e não farei nunca: Ler-te alto as Ficções, de Borges. Rir, enquanto nadássemos entre golfinhos, no mal sem maldade de Fernando de Noronha. Dormir no deserto. Cozinhar-te um bom muzonguê, seguindo a receita que me deixou a minha mãe. Ensinar-te as palavras mais meigas da língua umbundo (a língua mais meiga do mundo). Ensinar-te a flutuar no mar liso do Mussulo (ilhéu dos Padres). Ensinar-te a dançar o tango. Ouvir-te discorrer sobre a arte de caminhar dos manequins. Fotografar-te nua. Beijar os teus lábios depois de comermos juntos sorvete de pitanga. Ver contigo Deus e o diabo na terra do sol, do Glauber Rocha. Aliás, ver contigo a filmografia completa do Glauber...
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Não compreendo a dedicação da mamã ao papá. Tem o hábito de lhe calçar as peúgas, depois os sapatos e puxar os atacadores, atando-os. Talvez não se possa calçar facilmente se a mamã não o fizer por ele: a barriga dilatada não o deixará baixar-se. Mas é um rebaixamento da mamã. O amor é isto? Parece-me existir entre eles a confiança e a intimidade de quem se ama sem palavras nem pensamento. Precisam de se sentir juntos, e percebe-se que apreciam a proximidade. Essa unidade basta-lhes. Tem graça pensar que casaram para formar família, para se entreajudarem, e que o amor não entrava no plano, à partida. Não foi o que os juntou. Então foi o quê? O que construíram juntos ao longo do tempo permitiu-me conhecê-lo. Tê-lo, não. Não tive isso. O amor estava destinado a ser, para mim, as primeiras imagens que recordo do modo como se traduzia a sua relação. Havia momentos em que o papá ficava a olhar para a mamã e se ria da sua cara sempre composta e séria. “Qual é a graça”, perguntava ela. O papá...
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Revi mentalmente a teoria do David, as suas palavras antes de me mandar à vida. “Juntamo-nos porque há a simpatia inicial, depois o enamoramento, mas também para que olhem por nós, nos tragam um chá e um cobertor. Saber bem haver quem se preocupe conosco, nos toque no braço, nos cabelos e nas mãos. Juntamo-nos porque é o que se faz há milhares de anos e o que se espera que façamos. Juntamo-nos para que as vidas se justifiquem e legitimem, ao assemelharem-se a todas às outras. É assim que se faz. Juntamo-nos e ficamos nivelados e amparados. Juntamo-nos porque acreditamos amar-nos. Temos filhos. Entramos para esse exército, que é também um corpo diplomático. Habituamo-nos. Não estamos presos, mas de quem é este livro, e aquele jarrão? De quem é esta casa, este filho? Os gestos habituais que conhecemos de cor ao acordarmos de manhã, fazemo-los porque estamos juntos ou porque nos pertencem? O que é meu e o que é teu? Seria bom estar só, uns tempos, sem filhos, sem contas para pagar e sem o...
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Não tenho vergonha de dizer que estou triste, Não dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas: Estou triste porque vocês são burros e feios E não morrem nunca… Minha alma assenta-se no cordão da calçada E chora, Olhando as poças barrentas que a chuva deixou. Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores. Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão. E trocamos brindes, Acreditamos em tudo o que vem nos jornais. Somos democratas e escravocratas. Nossas almas? Sei la! Mas como são belos os filmes coloridos! (Ainda mais os de assuntos bíblicos…) Desce o crepúsculo E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças d’água, Acenderam-se de súbito os postes de iluminação! Do livro Apontamentos de história sobrenatural, de Mario Quintana.
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Os físicos dizem que o azul é a cor cujo comprimento de onda varia entre 450 e 480 nanômetros. Os pintores não dizem porque o céu é azul, mas guardam azuis entre o arrebol e o noturno. Os músicos conhecem alguns azuis, dentre os quais há os que cantam setembro e molham o Danúbio. Os poetas são, ao mesmo tempo, físicos, pintores e músicos. Ehre
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"Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com outros acho que nem se misturam (…) Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice. Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não como um filme em que a vida acontece no tempo, uma coisa depois da outra, na ordem certa, sendo essa conexão que lhe dá sentido, princípio, meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo em si mesmo, cada um contendo o sentido inteiro. Talvez seja esse o jeito de escrever sobre a alma em cuja memória se encontram as coisas eternas, que permanecem…" Guimarães Rosa
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" Dessa alma travestida, cansada e cínica enquadrada em dias vagos e noites vazias intranquila com o pulsar fremente da vida imersa em vãs filosofias há recorrente versão à reclusão-escolha, abandonando bandeira ante a luta, sem rastros nessa batalha programada ao fim. Saber que o sentir não é solitário, mas que estar no mundo é solidão, quando as respostas falham e os sentidos subvertem-se. Perder-se na ausência de si mesmo, como sendo estrangeiro em terra nativa suspenso fora de si, sem norte para voltar E o medo de não mais se encontrar " (Fonte: d-amargem )
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Se fosse dor tudo na vida, Seria a morte o sumo bem. Libertadora, apetecida, A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem! Quer para a bem-aventurança Leves de um mundo espiritual A minha essência, onde a esperança Pôs o seu hálito vital; Quer no mistério que te esconde, Tu sejas, tão somente, o fim: - Olvido, impertubável, onde “Não restará nada de mim!” Mas horas há que marcam fundo… Feitas, em cada um de nós, De eternidades de segundo, Cuja saudade extingue a voz. Ao nosso ouvido, embaladora, A ama de todos os mortais, A esperança prometedora, Segreda coisas irreais. E a vida vai tecendo laços Quase impossíveis de romper: Tudo o que amamos são pedaços Vivos do nosso próprio ser. A vida assim nos afeiçoa, Prende. Antes fosse toda fel! Que ao se mostrar às vezes boa, Ela requinta em ser cruel… Manuel Bandeira