“Que a televisão prejudica o movimento da pracinha Gerônimo Monteiro, em todos os Cachoeiros de Itapemirim, não há dúvida.

Sete horas da noite era hora de uma pessoa acabar de jantar, dar uma volta pela praça para depois pegar a sessão das 8 no cinema.

Agora todo mundo fica em casa vendo uma novela, depois outra novela.

(…)

Mas muito lhe será perdoado, à TV, pela sua ajuda aos doentes, aos velhos, aos solitários.Na grande cidade – num apartamentinho de quarto e sala, num casebre de subúrbio, numa orgulhosa mansão – a criatura solitária tem nela a grande distração, o grande consolo, a grande companhia. Ela instala dentro de sua toca humilde o tumulto e o frêmito de mil vidas, a emoção, o “suspense”, a fascinação dos dramas do mundo.

A corujinha da madrugada não é apenas a companheira de gente importante, é a grande amiga de pessoa desimportante e só. Da mulher velha, do homem doente… é a amiga dos entrevados, dos abandonados, dos que a vida esqueceu para um canto… ou dos que estão parados, paralisados, no estupor de alguma desgraça… ou que no meio da noite sofrem o assalto das dúvidas e melancolias… mãe que espera filho, mulher que espera marido… homem arrasado que espera que a noite passe, que a noite passe, que a noite passe…”


200 crônicas escolhidas, Rubem Braga. Ed. Círculo do Livro.

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