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Mostrando postagens de novembro, 2016

Meu tempo

Este é o meu tempo, o tempo em que agora escrevo, em que agora vivo. Os poetas antigos tiveram o seu e souberam preenchê-lo com as palavras que hoje me acompanham, me instigam, me decifram. Este é o meu tempo, o único tempo, o que vivo, o que respiro. Este, nesse instante, já passou mas eu ainda continuo tendo, ou não teria passado? Ou não passa, só acaba? Este é o meu tempo, me permita apreciá-lo, extrair seu fundamento, mas primeiro, me deixe encontrá-lo. Por acaso, não estaria no tempo, neste tempo, em que agora vivo? Joice Buzzi

Verdade

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. (Carlos Drummond de Andrade)

A Palavra

Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol, dentro da qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a. (Carlos Drummond de Andrade)

Parolagem da Vida

Como a vida muda. Como a vida é muda. Como a vida é nula. Como a vida é nada. Como a vida é tudo. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como a vida é outra sempre outra, outra não a que é vivida. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é forte em suas algemas. Como dói a vida  quando tira a veste de prata celeste. Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é louca estúpida, mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem, esse lobisomem. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. Como a vida joga de paz e de guerra povoando a terra de leis e fantasmas. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascid...

Poesia

Gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. (Carlos Drummond de Andrade)

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo ano novo Cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido), Para você ganhar um ano Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo Até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, Mas com ele se come, se passeia, Se ama, se compreende, se trabalha, Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, Não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções Para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido Pelas besteiras consumidas Nem parvamente acreditar Que por decreto de esperança A partir de janeiro as coisas mudem E seja tudo claridade, recompensa, Justiça entre os homens e as nações, Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, Direitos respeitados, começando Pelo dire...

O tempo passa? Não passa

O tempo passa? Não passa no abismo do coração. Lá dentro, perdura a graça do amor, florindo em canção. O tempo nos aproxima cada vez mais, nos reduza um só verso e uma rima de mãos e olhos, na luz. Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer medida. Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida. São mitos de calendário tanto o ontem como o agora, e o teu aniversário é um nascer toda hora. E nosso amor, que brotou do tempo, não tem idade pois só quem ama escutou o apelo da eternidade. (Carlos Drummond de Andrade)

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. (Carlos Drummond de Andrade)

O encontro Marcado

"Nascemos para morrer — nada pior do que não ter nascido. A vida tem dessas contradições, dizia o pai. Onde as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele não tinha onde se ancorar. Oh, o Toledo era um tratado de psicologia. Tudo isso é natural, diria ele, natural, viver é assim mesmo. O tempo acontece, o que tinha de ser já foi, agora a nostalgia de já ter sido em experiência, etcetera, etcetera. Conheceria novas pessoas, pensaria outras coisas, ouviria em silêncio prudente e compassivo opiniões alheias que um dia já foram suas. E está certo! Não se pode fazer das dúvidas de outrora o pão nosso de cada dia: não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei. (...) Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando mas não vejo onde nem por quê. Depressa, não há tempo a perder. Também tenho o meu preço mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar ...