Postagens

Mostrando postagens de março, 2019
Perto de mim com teus hábitos, teu colorido e tua guitarra como estão juntos os países nas lições escolares e duas comarcas se confundem e há um rio perto de um rio e crescem juntos dois vulcões. Perto de ti é perto de mim e longe de tudo é tua ausência e é cor de argila a lua na noite do terremoto quando no terror da terra juntam-se todas as raízes e ouve-se soar o silêncio com a música do espanto. O medo é também um caminho. E entre suas pedras pavorosas pode marchar com quatro pés e quatro lábios, a ternura. Porque sem sair do presente que é um anel delicado tocamos a areia de ontem e no mar ensina o amor um arrebatamento repetido. Pablo Neruda; ‘Integrações’; in O Coração Amarelo
"De repente não mais atinjo a cor do teu corpo. De repente o recinto se enche de tipos curiosos, do fato de estarmos pensando, da lastimável distância entre nossos fantasmas. De repente a lógica da tua mão me rasga: idealizo campos, pombos e uma parede branca que ao acordar confundi com céu. Confundi com céu. De repente descubro que esta impossibilidade é a matéria que trabalho, que comigo desenho no recuo das tuas pernas, que obedeço e desobedeço como que me rasgando." Ana Cristina Cesar
Minha existência fosse uma canção de apaixonar a chuva. E tempestades de meus olhos iniciassem o céu inteiro onde eu mergulhasse de uma vez por todas sem escafandro nem boia de braço. Ou se eu pudesse ser alguém movediço, do tipo que sufoca os outros dentro da barriga. E se eu fosse bom em chegar perto deslizando numa exibição espetacular de não ser notado. E se eu soubesse definitivamente jamais canonizar o meu desejo. Ou se eu não precisasse consultar o dermatologista para compreender de que modo a luz que certas pessoas emanam me escalpela. Isso se eu não admitisse mais firmar platonismos. E se não gritasse aguda a carne diante de olhares tão meigos que passam a ser anzóis em meus poros. E se eu não mais tropeçasse no amor perfeito dizendo ai ai. E se eu não presenciasse de novo e de novo todas essas desenvolturas que aprisionam. E se eu fosse esse rouxinol envenenado de frio que na minha varanda se esconde da chuva. Luiz Felipe Leprevost
na tentativa de forjar qualquer poema uma tentativa ainda maior de se perder de ser tempestade em nossos próprios navios de papel. naufragar é preciso. Matheus Torres
Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas." António Lobo Antunes
nenhum dia pede licença para desarrumar nossa existência e suas agendas em papel pautado: uma batida um incêndio um deslizamento duas balas perdidas um apêndice inflamado e a vida em sua inteireza nos ensinando para sempre que os corpos são finitos e que não há concreto que não seja precário todas paredes da velha casa ao chão… só não o que as levantou talvez por isso dicionários dizem que amor é substantivo abstrato Ehre
o tempo cria paredes onde havia estradas… e não depende, o amor, da cena que janela emoldura porque os olhos seguem amando os pássaros amam mesmo em sua ausência, amam desconhecendo-lhes a altura repara que as pálpebras não cansam de imitar as asas Ehre
"Sendo vidas, nada mais nos resta fazer senão irmos vivendo. (…) Já nem sei mais nada, e às vezes tinha vontade de ir mais devagar. Viver devagar é que é bom, e entreviver-se, amando, desejando e sofrendo, avançando e recuando, tirando das coisas ao redor uma íntima compensação, recriando em si a reserva dos outros e vivendo em uníssono. Isso é que é viver, e viver afinal é questão de paciência. É isso mesmo, é ir olhando e dizer: aquilo é bonito! É muito comprido parece que vai cair e não cai. Hoje é sábado, amanhã é domingo. Aquela moça parece triste, o que há com ela? Estou cansado, mamãe. Ah, eu tinha um selo da Bélgica, e hoje não tenho mais. (…) A gente podia ser assim, Clarice, viver apenas, aceitar o momento essencial e nascer de novo entre dois cigarros, entre o brinquedo e o edifício, entre a palavra e a curva. (…) Viver é isso mesmo e afinal ser feliz é fácil como fechar os olhos. (…) Mas na verdade, não há calma nenhuma, tudo é muito difícil, e afinal as palavras estão...