Postagens

Mostrando postagens de outubro, 2017
"Ninguém nos pode privar da alegria do primeiro momento de consciência, ou seja, da descoberta. Mas, se reclamamos as respectivas honras, a alegria corre grave risco de se desfazer. Porque na maior parte dos casos não somos os primeiros. O que é a descoberta? E quem pode dizer que descobriu isto ou aquilo? Que grande loucura é afinal alardear prioridades nesta matéria. Porque não querer confessar abertamente o plágio é arrogância e inconsciência. Há dois sentimentos que são os mais difíceis de ultrapassar: o que resulta de descobrir uma coisa que já foi descoberta e o que decorre de se não ver descoberto aquilo que se devia ter descoberto." Goethe
As observações e os acontecimentos do solitário calado são ao mesmo tempo mais difusos e mais penetrantes que os do sociável, seus pensamentos são mais pesados, estranhos e nunca sem um traço de tristeza. Imaginações e percepções que poderiam facilmente ser postas de lado com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões, ocupam-no sobremaneira, aprofundam-se no silêncio, tornam-se importantes, acontecimento, aventura, sentimento. A solidão acarreta o original, o ousado, o estranhamente belo, o poema. Mas a solidão também acarreta o errado, o desproporcional, o absurdo e o proibido. (...) Sócrates esclarecia Fédon sobre o anseio e a virtude. Falava-lhe sobre o susto ardente que o sensível sofre quando seus olhos vêem uma alegoria da beleza eterna; falava dos desejos do ignóbil e mau que não pode pensar na beleza quando vê sua imagem, e não é capaz de veneração; falava do medo sagrado que domina o nobre, como então treme e fica fora de si e quase não se atreve a olhar e adora aquele que t...
Tenho que aprender a arte de olhar para o mundo e não me enfurecer, nem me exaltar. É arte porque eventualmente é falha, é tentativa criativa e erro. Olhar e entender, tecer comentários, conhecer as teorias mas agir como se apenas olhasse. Assim como num quadro, numa pintura abstrata. Não entendo bem, mas no fundo eu sei e sinto. Sentir o mundo, as coisas dele, as tralhas, os escombros. Mas se eu sinto, posso me enfurecer então? Não, não quero me enfurecer Não quero alterar meu estado de alma pelo que não posso alterar do mundo. Não mudando ele porque posso querer então, mudar a mim mesma? Joice Buzzi
Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que idéia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas). O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que nã...

Lisbon Revisited (1923)

Não: Não quero nada. Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? Se têm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram? Não me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. Já disse que sou sozinho! Ah, q...
"Às vezes testo conhecidos meus assim: Quem usaria remendo ou costuras duplas sobressalentes sobre o joelho?" Muitos reagem na crença de que suas perspectivas de vida seriam, arruinadas se procedessem assim. Para eles seria mais fácil mancar, de perna quebrada até a cidade do que de calça rasgada. Vê-se com freqüência que, se ocorre um acidente com as pernas de um cavalheiro, estas podem ser consertadas, mas se o mesmo acontece com as pernas de suas calças, não há remédio, tudo porque ele se deixa levar não pelo que é respeitável, mas pelo que é respeitado. Eis porque conhecemos poucos homens e uma infinidade de paletós e calças. Vesti um espantalho com o vosso último traje e ficai nu a seu lado: quem não saudaria primeiro o espantalho?" Walden, A Vida nos Bosques - D. H. Thoreau
"A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente." Albert Camus
"As pessoas buscam retiros no campo, na costa e no monte. Tu também tens o costume de desejar tais retiros. Mas tudo isso é do mais vulgar, porque podes, no momento em que queiras, retirar-te em ti mesmo. Em nenhuma parte o homem se retira com maior tranquilidade e mais calma que em sua própria alma. Sobretudo aquele que possui em seu interior tais bens, que, ao se inclinar a eles, de imediato consegue uma tranquilidade total. E denomino tranquilidade única e exclusivamente à boa ordem. Concede-te, pois, sem pausa, esse retiro e recupera-te. Sejam breves e elementares os princípios que, tão logo sejam localizados, serão suficientes para enclausurar-te em toda a tua alma e para enviar-te de novo, sem aborrecimento, àquelas coisas da vida frente as que te retiras. Porque, contra quem te aborrecerás? Contra a maldade dos homens? Lembra-te que os seres racionais nasceram uns para os outros, que a tolerância é parte da justiça, e que seus erros são involuntários. Lembra, tamb...
"Quando está de acordo com a natureza, o nosso “dono interior” adota, em relação os acontecimentos, uma atitude tal que sempre, e com facilidade, pode adaptar-se às possibilidades que lhe são dadas. Não tem predileção por nada predeterminado, mas se lança instintivamente frente o que lhe é apresentado, com prevenção, e converte em seu favor inclusive o que lhe era obstáculo. Como o fogo, quando se apropria dos objetos que caem sobre ele, sob os quais uma pequena chama haveria sido apagada. Mas um fogo resplandecente com grande rapidez se familiariza com o que se encontra sobre ele e o consome totalmente levantando-se a maior altura com esses novos escombros." Marco Aurélio in Meditações
A vida repartida dia a dia com quem vinha querendo que a vida pudesse um dia ser vida, posso dizer que alguma coisa aprendi (primeiro com amargura, depois com essa dolorida lucidez que nos ensina a ver nossa feiúra.) Aprendi, por exemplo, que não somos os melhores. Custou, mas aprendi. Tempo largo levei para enxergar que era de puro desamor a chama que crescia no olhar do companheiro. Não somos nem melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa. Todos os que chegamos dessas águas barrentas e burguesas, para dar (pouco sabemos dar) uma demão na roda e transformar a vida injusta dos que conhecem mesmo a banda podre, mostramos a nós mesmos, mais que aos outros, a face verdadeira que levamos. É repetir: melhor é a nossa causa. Mas no viver da vida, a vida mesma, quando é impossível disfarçar, quando não se pode ser nada mais do que o homem que a gente é mesmo, na prática cotidiana da chamada vida, que é a verdadeira prática do homem, fomos sempre e somente como os outros, e muit...
“(…) Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que…, Isto. … Eu sou um internado num manicómio sem manicómio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos: Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos. … Estala, coração de vidro pintado!” Fernando Pessoa
procura, então, tem cura? há quem diga que prevalece a loucura há quem veja na pergunta o ponto chave e o buraco da fechadura mas a dúvida perdura se há uma palavra que te possua ainda que precavidos de prerrogativas e abismos estamos bem servidos por esses achados somos perdidos Estrela Ruiz Leminski
Ah! Ser indiferente! É do alto do poder da sua indiferença Que os chefes dos chefes dominam o mundo. Ser alheio até a si mesmo! É do alto do sentir desse alheamento Que os mestres dos santos dominam o mundo. Ser esquecido de que se existe! É do alto do pensar desse esquecer Que os deuses dos deuses dominam o mundo. (Não ouvi o que dizias… ouvi só a música, e nem a essa ouvi… Tocavas e falavas ao mesmo tempo? Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo… Com quem? Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo… Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Não! Só quero a liberdade!

Não! Só quero a liberdade! Amor, glória, dinheiro são prisões. Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles? Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo. Quero respirar o ar sozinho, Não tenho pulsações em conjunto, Não sinto em sociedade por quotas, Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim. Onde quero dormir? No quintal... Nada de paredes — ser o grande entendimento — Eu e o universo, E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos, O grande abismo infinito para cima A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara, Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo. Não quero! Dêem-me a liberdade! Quero ser igual a mim mesmo. Não me capem com ideais! Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras! Não me façam elogiável ou inteligível! Não me matem em vida! Quero saber atirar com essa bola alta à lua E ouvi-la cair no quintal do lado! ...
"Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas." Eduardo Galeano

Não te rendas...

Não te rendas, ainda é tempo De se ter objetivos e começar de novo, Aceitar tuas sombras, Enterrar teus medos Soltar o lastro, Retomar o voo. Não te rendas que a vida é isso, Continuar a viagem, Perseguir teus sonhos, Destravar o tempo, Correr os escombros E destapar o céu. Não te rendas, por favor, não cedas, Ainda que o frio queime, Ainda que o medo morda, Ainda que o sol se esconda, E o vento se cale, Ainda existe fogo na tua alma. Ainda existe vida nos teus sonhos. Porque a vida é tua e teu também o desejo Porque o tens querido e porque eu te quero Porque existe o vinho e o amor, é certo. Porque não existem feridas que o tempo não cure. Abrir as portas, Tirar as trancas, Abandonar as muralhas que te protegeram, Viver a vida e aceitar o desafio, Recuperar o sorriso, Ensaiar um canto, Baixar a guarda e estender as mãos Abrir as asas E tentar de novo Celebrar a vida e se apossar dos céus. Não te rendas, por favor, não cedas, Ainda que o frio te queime, Ainda que o medo te morda, Ainda...
“Nosso mal está em nossa alma; ora, ela não pode escapar de si mesma, in culpa est animus, qui se non effugit unquam. Assim, é preciso trazê-la de volta e refugiá-la em si: essa é a verdadeira solidão, e que pode ser desfrutada no meio das cidades e das cortes dos reis; mas desfrutamos mais convenientemente à parte. Ora, já que decidimos viver sós e dispensar companhia, façamos com que nosso contentamento dependa de nós: libertemo-nos de todos os laços que nos prendem aos outros, conquistemos de nós o poder de viver sós, em conhecimento de causa, e assim vivermos a nosso gosto. (...) Sem dúvida, o homem de bom entendimento nada perdeu se tiver a si mesmo. (...) Temos uma alma capaz de recolher-se em si mesma; ela pode se fazer companhia, tem com que atacar e com que se defender, com que receber e com que dar: não temamos nessa solidão embotar-nos em uma penosa ociosidade, in solis sis tibi turba locis [Nestes locais solitários sê para ti mesmo a multidão.]” Michel de Montaigne, in: Os ...

Abaixo tua vaidade

O que amas de verdade permanece, o resto é escória O que amas de verdade não te será arrancado O que amas de verdade é tua herança verdadeira Mundo de quem, meu ou deles ou não é de ninguém? Veio o visível primeiro, depois o palpável Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno, O que amas de verdade é tua herança verdadeira O que amas de verdade não te será arrancado A formiga é um centauro em seu mundo de dragões. Abaixo tua vaidade, nem coragem Nem ordem, nem graça são obras do homem, Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo. Aprende com o mundo verde o teu lugar Na escala da invenção ou arte verdadeira, Abaixo tua vaidade, Paquin, abaixo! O elmo verde superou tua elegância. “Domina-te e outros te suportarão” Abaixo tua vaidade Tu és um cão surrado e largado ao granizo, Uma pega inchada sob o sol instável, Metade branca, metade negra E confundes a asa com a cauda Abaixo tua vaidade Que mesquinhos teus ódios Nutridos na mentira, Abaixo tua vaidade, Ávido em destruir, avaro em caridade, A...
Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me. Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão. Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em direcção ao mar. Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto. Para trás ficou a cidade. E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão. Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo. E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos. No fim do sono existe...

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro. Sabendo que não vou ver o homem que quero ser. Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém: principalmente aos que sofrem na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem. Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do singular – foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se – muito mais sofridamente – na primeira e profunda pessoa do plural. Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar. É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos. Se trata de ir ao encontro. (Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros.) Se trata de abrir o rumo. Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando. Thiago de Mello
“Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouvi-la. A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer.” Charles Bukowski, "O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio".
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto... [...] E nessa destruição geral de nossas instituições, a maior de todas as ruínas, Senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação dos homens públicos, pelo interesse dos nossos partidos, pela influência constante dos nossos Governos. E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade aos criminosos confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolve um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem ..." (Ruy Barbosa - Discursos Parlamentares - Obras Completas Vol. XLI - 1914 - TOMO III - pág. 86/87)
"A ditadura perfeita terá as aparências de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão." - Aldous Huxley no prefácio do livro ‘Admirável Mundo Novo’
"Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça.(...)No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar." Arthur Schopenhauer
"Muitos, constatando que a vida não corresponde às suas esperanças, vão então acusar a vida, censurá-la absurdamente por ser o que ela é (como seria outra coisa? ), enfim enterrar-se vivos no rancor ou no ressentimento... Prefiro o alegre amargor do amor, do sofrimento, da desilusão, do combate, vitórias e derrotas, da resistência, da lucidez, da vida em ato e verdade. Prefiro a realidade, e a dureza da realidade. Se a vida não corresponde às nossas esperanças, não é forçosamente a vida que está errada: pode ser que sejam as nossas esperanças que nos enganam desde o início." André  Comte-Sponville - Bom Dia, Angústia!
"Às vezes é bom ir ao fundo e frequentar os homens, e às vezes somos até obrigados e chamados a isto, mas aquele que prefere permanecer só e tranquilo em sua obra, e não quer ter mais que uns poucos amigos, é quem circula com maior segurança entre os homens e no mundo. É preciso não se fiar jamais no fato de viver sem dificuldades ou sem preocupações ou obstáculos de qualquer natureza, mas não se deve procurar ter uma vida muito fácil. E mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter original de um Robinson Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior, e sim cultivá-la." Vincent van Gogh. In: Cartas a Theo. 
"[...] "Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender — entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simpies de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez. Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro — preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana. No entanto às vezes adivinhava. Eram manchas cósmicas que substituíam entend...

Soneto

Não és bom, nem és mau: és triste e humano... Vives ansiando, em maldições e preces, Como se a arder no coração tivesses O tumulto e o clamor de um largo oceano. Pobre, no bem como no mal padeces; E rolando num vórtice insano, Oscilas entre a crença e o desengano, Entre esperanças e desinteresses. Capaz de horrores e de ações sublimes, Não ficas com as virtudes satisfeito, Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: E no perpétuo ideal que te devora, Residem juntamente no teu peito Um demônio que ruge e um deus que chora. Olavo Bilac
"Desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante, deixa a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos." . [Rainer M. Rilke. In: Cartas a um jovem poeta]
“O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê-la à beira de um precipício.”  Stendhal
Amo a vida. Fascina-me o mistério de existir. Quero viver a magia de cada instante, embriagar-me de alegria. Que importa a nuvem no horizonte, chuva de amanhã? Hoje o sol inunda o meu dia. Alegria de Viver, em Reika, de Helena Kolody.

Let's Play That (Torquato Neto)

quando eu nasci um anjo louco muito louco veio ler a minha mão não era um anjo barroco era um anjo muito louco, torto com asas de avião eis que esse anjo me disse apertando minha mão com um sorriso entre dentes vai bicho desafinar o coro dos contentes vai bicho desafinar o coro dos contentes let's play that
" 'A vida tem um significado', sentimos nós com Browning, 'e procurar esse significado é, para mim, um deleite'. [...] Queremos compreender; 'a vida, para nós, significa estar sempre transformando em luz e chama tudo aquilo que somos ou que deparamos', somos semelhantes a Mitya, em Os Irmãos Karamazov —'um daqueles que não querem milhões, mas uma resposta a suas perguntas'.[...]'Ser filósofo', disse Thoureau, 'não é apenas ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola, mas amar o saber a ponto de viver, segundo os ditames deste saber, uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança'.Podemos estar certos de que, se conseguirmos controlar o saber, todas as demais coisas nos serão incorporadas. 'Procurem, primeiro, as boas coisas da mente', adverte-nos Bacon, ' e o resto lhes será proporcionado, ou então, a falta do resto não será sentida.' A verdade não nos fará ricos, mas nos tornará livres.[......
" Feliz dia para quem é O igual do dia, E no exterior azul que vê Simples confia! " Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Semideuses

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que f...

Impermanência

"Nada no mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos ainda seríamos se não a apreciássemos enquanto a temos. Se mutabilidade é da essência da existência, nada mais natural do que fazer dela a premissa da nossa filosofia." . [W. Somerset Maugham. In: O fio da navalha]
"Tem-se dito que os grandes eventos do mundo ocorrem no cérebro. É no cérebro, apenas no cérebro, que ocorrem, também, os grandes pecados do mundo." Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray - Ed. Abril - p. 34