As observações e os acontecimentos do solitário calado são ao mesmo tempo mais difusos e mais penetrantes que os do sociável, seus pensamentos são mais pesados, estranhos e nunca sem um traço de tristeza. Imaginações e percepções que poderiam facilmente ser postas de lado com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões, ocupam-no sobremaneira, aprofundam-se no silêncio, tornam-se importantes, acontecimento, aventura, sentimento. A solidão acarreta o original, o ousado, o estranhamente belo, o poema. Mas a solidão também acarreta o errado, o desproporcional, o absurdo e o proibido.

(...) Sócrates esclarecia Fédon sobre o anseio e a virtude. Falava-lhe sobre o susto ardente que o sensível sofre quando seus olhos vêem uma alegoria da beleza eterna; falava dos desejos do ignóbil e mau que não pode pensar na beleza quando vê sua imagem, e não é capaz de veneração; falava do medo sagrado que domina o nobre, como então treme e fica fora de si e quase não se atreve a olhar e adora aquele que tem a beleza. Pois a beleza, meu Fédon, só ela é gentil e visível ao mesmo tempo; ela é, preste bem atenção!

A única forma do espiritual que podemos receber sensualmente, suportar sensualmente. Ou o que seria de nós se o divino, a razão, a virtude e a verdade se quisessem apresentar-se-nos sensualmente! Não pereceríamos e queimaríamos de amor como Semele perante Zeus? Assim, a beleza é o caminho do homem sensível ao espírito (...) E depois expressou o mais sutil, o astuto cortejador: pois o amante é mais divino que o amado, porque naquele está o deus, e no outro não – pensamento tão carinhoso e irônico que talvez jamais tenha sido pensado e do qual nasce toda a travessura e a mais secreta voluptuosidade do anseio.

A felicidade do literato é o pensamento que é todo sentimento; é o sentimento que consegue tornar-se todo pensamento. Um pensamento palpitante como este, um sentimento tão exato, pertencia e obedecia ao solitário, naquela ocasião: isto é, que a natureza estremece de prazer quando o espírito se curva em adoração perante a beleza.

Thomas Mann. In: A morte em Veneza

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arte