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Mostrando postagens de dezembro, 2017
Fazer o que seja é inútil. Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazer mais vale o inútil do fazer. Mas não, fazer para esquecer. que é inútil: nunca o esquecer Mas fazer o inútil, sabendo que ele é inútil, e bem sabendo que é inútil e que seu sentido não será sequer pressentido, fazer: porque ele é mais difícil do que não fazer, e dificilmente se poderá dizer com mais desdém, ou então dizer mais direto ao leitor Ninguém que o feito o foi para ninguém. João Cabral de Melo Neto

Cantiga de enganar

O mundo não vale o mundo, meu bem. Eu plantei um pé-de-sono, brotaram vinte roseiras. Se me cortei nelas todas e se todas me tingiram de um vago sangue jorrado ao capricho dos espinhos, não foi culpa de ninguém. O mundo, meu bem, não vale a pena, e a face serena vale a face torturada. Há muito aprendi a rir, de quê? de mim? ou de nada? O mundo, valer não vale. Tal como sombra no vale, a vida baixa… e se sobe algum som deste declive, não é grito de pastor convocando seu rebanho. Não é flauta, não é canto de amoroso desencanto. Não é suspiro de grilo, voz noturna de correntes, não é mãe chamando filho, não é silvo de serpentes esquecidas de morder como abstratas ao luar. Não é choro de criança para um homem se formar. Tampouco a respiração de soldados e de enfermos, de meninos internados ou de freiras em clausura. Não são grupos submergidos nas geleiras do entressono e que deixam desprender-se, menos que a simp...