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Mostrando postagens de outubro, 2016

Walden

"Cada manhã era um alegre convite para que eu conferisse à minha vida a mesma simplicidade, diria até inocência, da própria Natureza. Tenho sido um adorador da Aurora tão sincero quanto os gregos. Levantava-me cedo e banhava-me no lago; era um exercício religioso, e uma das melhores coisas que eu fazia. Dizem que na banheira do rei Tching-Thang estavam gravados caracteres que diziam: "Renova-te completamente a cada dia, e de novo e de novo, para sempre de novo". Sou capaz de entender isso. A manhã traz de volta as eras heroicas. [...] Temos que aprender a redespertar e a nos manter acordados, não com ajuda mecânica, mas por uma infinita expectativa da alvorada, que não nos abandona sequer em nosso sono mais profundo. Não conheço fato mais animador do que a inquestionável faculdade humana de elevar sua existência por meio de um empenho consciente. Ser capaz de pintar um quadro específico, ou esculpir uma estátua, e assim tornar belos alguns objetos, tem sua importância;...

Desobediência Civil

"No entanto, apresentou-se diante dos meus olhos uma mudança no cenário — a cidade, o estado e o país —, uma mudança maior do que poderia ter produzido aquela passagem de tempo tão exígua. Vi com nitidez ainda maior o estado em que vivia. Vi até que ponto poderia confiar, como concidadãos e amigos, nas pessoas entre as quais eu vivia. Constatei que sua amizade era só para os bons momentos; que eles não se dedicavam muito a praticar o bem; que eram uma raça tão distinta da minha, por seus preconceitos e superstições, quanto são os chineses e os malaios; que, em seus sacrifícios pela humanidade, não arriscavam coisa alguma, nem mesmo suas propriedades; que, afinal de contas, eles não eram nada nobres, pois tratavam o ladrão da mesma forma que este os tratara, e esperavam salvar suas almas ao cumprir certos ritos exteriores e proferir algumas orações, e ao trilhar de quando em quando um determinado caminho reto, embora inútil. Este talvez seja um julgamento demasiado severo de meus c...

O sono

O sono que desce sobre mim, O sono mental que desce fisicamente sobre mim, O sono universal que desce individualmente sobre mim — Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir, O sono da vontade de dormir, O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: É o sono da soma de todas as desilusões, É o sono da síntese de todas as desesperanças, É o sono de haver mundo comigo lá dentro Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. O sono que desce sobre mim É contudo como todos os sonos. O cansaço tem ao menos brandura, O abatimento tem ao menos sossego, A rendição é ao menos o fim do esforço, O fim é ao menos o já não haver que esperar. Há um som de abrir uma janela, Viro indiferente a cabeça para a esquerda Por sobre o ombro que a sente, Olho pela janela entreaberta: A rapariga do segundo-andar de defronte Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. De quem? Pergunta a minha indiferença. E tudo isso é sono. Meu Deus, tanto sono!... © ÁLVARO DE CAMPOS 28-8-1935
Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade. Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano. Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha. Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória. Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo. Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro. Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa. Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo. Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos. Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã. Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio. Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água. E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola, fitando sem movimento sempre o mesmo ponto, me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado. Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa. Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas. Verdade, não me dê excessiva atenção. Seriedade, m...
"Sou um monte confuso de forças cheias de infinito Tendendo em todas as direcções para todos os lados do espaço, A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo, Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas, Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos." Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir - 21.10.1935 Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
Eu imperturbável, de pé, tranqüilo, em meio à Natureza, Mestre de tudo ou de tudo concubina, aprumado em meio ao que é irracional, Imbuído como eles, passivo, receptivo, silencioso tal qual eles, Encontrando minha ocupação, pobreza, notoriedade, excentricidade, crimes, sendo menos importante do que pensava, (…) Eu, onde quer que minha vida seja vivida, eu para ser auto-equilibrado nas contingências, Para confrontar a noite, as tempestades, a fome, o ridículo, os acidentes, as repulsas, tal como fazem as árvores e os animais. Walt Whitman
(...) Pressa!… Ânsia voraz de me fazer em muitos, fome angustiosa da fusão de tudo, sede da volta final da grande experiência: uma só alma em um só corpo, uma só alma-corpo, um só, um!… Como quem fecha numa gota o Oceano, afogado no fundo de si mesmo… João Guimarães Rosa
"Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir. «Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações? A vida é o que fazemos dela. As viagens são os v...
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação. Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido, depois chego à consciência da terra, ando como os outros, me pregam numa cruz, numa única vida. Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia. Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos. Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado, gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar, alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal. Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter, tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos, não acredito em nenhuma técnica. Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas, é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários, depois estou com os meus tios doi...
Depois de cada guerra alguém tem que fazer a faxina. Colocar uma certa ordem que afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulho para o lado da estrada para que possam passar os carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolar no lodo e nas cinzas em molas de sofás em cacos de vidro e em trapos ensanguentados. Alguém tem que arrastar a viga para apoiar a parede, pôr a porta nos caixilhos, envidraçar a janela. A cena não rende foto e leva anos. E todas as câmeras já debandaram para outra guerra. As pontes têm que ser refeitas, e também as estações. De tanto arregaçá-las, as mangas ficarão em farrapos. Alguém de vassoura na mão ainda recorda como foi. Alguém escuta meneando a cabeça que se safou. Mas ao seu redor já começam a rondar os que acham tudo muito chato. Às vezes alguém desenterra de sob um arbusto velhos argumentos enferrujados e os arrasta para o lixão. Os que sabiam o que aqui se passou devem dar lugar àqueles que pouco sabem. Ou menos que pouco. E por fim nada...

Carta a Meneceu

"De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes. Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas po...
“Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre os principais apetites da alma. A arte e a religião, os carnavais e as saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, dePortas na muralha. E há, sempre houve na vida individual para uso cotidiano, drogas inebriantes. Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem de frutos ou raízes, todos, sem exceção, são conhecidos e vêm sendo sistematicamente empregados pelos seres humanos, desde épocas imemoriais. E a esses modificadores naturais da percepção, a ciência moderna adicionou sua cota de produ...
"Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e a gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias - tudo isso são coisasprivadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares. Muitos desses universos são suficientemente semelhantes, uns aos outros, para permitir entre eles uma compreensão por dedução, ou mesmo por mútua projeção de percepção. Assim, recordando nossos próprios infortúnios e humilhações podemos nos condoer de outras p...
Sonhei com anjos, mas eles eram humanos. Anjos são aquelas pessoas que cruzam nosso caminho, pela força da genética, da afinidade ou das duas coisas juntas, e fazem bem ao viver. Reforça-se a ideia de serem anjos quando não estão mais perto de nós fisicamente, quando sua vida por aqui se esgotou. No céu talvez eles vivam, no céu talvez eles fiquem como estrelas, lindas e cintilantes. Já na minha memória, eu não tenho dúvida da sua morada. Sonhei com anjos e só eu podia vê-los, abracei-os como nunca. Parecia uma despedida, daquelas que eu não tive a chance de ter. Nos abraçamos e choramos porque é assim que a vida se resume: abraçar e chorar. Amar e chorar, de felicidade, tristeza, euforia, conformação. Sonhei com anjos e eles continuavam lindos e sorridentes, como sempre foram e como vão continuar sendo, dentro de mim. Joice Buzzi em memória de Patric Ronaldo Wons e Pablo Renan Wons.

Desobediência Civil

"Não é desejável cultivar tanto respeito pela lei quanto pelo que é direito. A única obrigação que tenho o direito de assumir é a de fazer em qualquer tempo o que julgo ser correto. Já se disse, com muita razão, que uma corporação não tem consciência alguma; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação com uma consciência. A lei nunca tornou os homens sequer um pouquinho mais justos; e, por força de seu respeito por ela, até mesmo os mais bem-intencionados são convertidos diariamente em agentes da injustiça.  Um resultado comum e natural do respeito indevido pela lei é que se pode ver uma fila de soldados, coronel, capitão, cabo, recrutas, carregadores de explosivos e tudo o mais, marchando em ordem admirável pelos caminhos mais tortuosos para a guerra, contra sua vontade, pior ainda, contra sua sensatez e sua consciência, o que torna a marcha realmente muito dura e faz o coração palpitar. Eles não têm dúvida de que estão envolvidos numa atividade execrável; são...

Me deixem ser triste

Me deixem ser triste. Me deixem chorar essa dor que agora habita meu peito e sangra. Eu sei, vocês não querem me ver assim. Desconfio que não é só porque me querem bem, mas porque eu lhes lembro uma dor que também é sua. A dor que a gente esconde, sigila, guarda a sete chaves, talvez oito. A dor que não verte porque têm-se medo da sua vastidão. Têm-se medo do domínio que ela pode estabelecer sobre nós, bichos de terra tão pequenos. A dor. Me deixem ser triste. Pois eu prometo que aprender a ser triste é parte importante para aprender a ser verdadeiramente feliz. Deixem que eu grite, deixem que eu xingue e me escandalize. Deixem minha expressão demonstrar o horror, o medo, a indignação. E eu garanto, garanto que a dor vazada deixa espaço para ser ocupada por talvez, uma alegria, uma felicidade simples, um desejo de natureza concedido. Eu quero ser triste, para ser feliz. Para entender a importância dos dias de luz. Da entrega do amor e do carinho gratuito. Eu quero ser triste para ser ...