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Mostrando postagens de março, 2017

Crescer

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Epitáfios

Epitáfios escritos em túmulos de diversos cemitérios, aqui na terra: Por querer estar melhor, estou aqui. Eu lhes disse que não me sentia bem. Desculpem-me por não me levantar. Nem Deus pode me tirar o que eu gozei. Cometeu o delito de ser bom. Esta cinza regada foi boca beijada. E ainda lhe brotam as frutinhas. Cumprimentou os conhecidos, abraçou os amigos, beijou os queridos. E foi-se. Ela não era deste mundo. Eduardo Galeano, em O TEATRO DO BEM E DO MAL

Ladeira do nada

Sempre subindo a ladeira do nada, Topar em pedras que nada revelam. Levar às costas o fardo do ser E ter certeza que não vai ser pago. Sentir prazeres, dores, sentir medo, Nada entender, querer saber tudo. Cantar com voz bonita prá cachorro, Não ver “PERIGO” e afundar no caos. Fumar, beber, amar, dormir sem sono, Observar as horas impiedosas Que passam carregando um bom pedaço da vida, sem dar satisfações. Amar o amargo e sonhar com doçuras Saber que retornar não é possível Sentir que um dia vai sentir saudades Da ladeira, do fardo, das pedradas. Por fim, de um só salto, Transpor de vez o paredão. Torquato Neto

O incomunicável

Eu quero a não palavra Eu quero o silêncio Nada que possa traduzir Ou explicar Quero apenas imagens Cores, figuras, sorrisos O inatingível Não quero nada que denuncie Que grite Que deixe espaço para a má interpretação Eu quero o segredo A essência O que não se comunica Que vai morrer comigo Eu quero e mesmo para querer eu preciso dizer Ah, ânsia paradoxal de palavras Desejo de me fazer entendida mesmo quando não quero Não sei a quem devo satisfação Talvez, a única que entenderá O segredo O incomunicável O inexplicável De mim Joice Buzzi

Amizade estelar

"Nós éramos amigos e nos tornamos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois navios que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos – e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol. Parecendo haver chegado ao seu destino e ter tido um só destino. Mas, então, a todo-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo – ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é da lei acima de nós: justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequeno...

Espíritos ricos

"Nós, os pródigos e ricos de espírito, que tais como fontes abertas ficamos à beira da estrada e a ninguém impedimos que nos retire água; infelizmente não sabemos nos defender ao desejar fazê-lo, não podemos por nada evitar que nos turvem, nos tornem escuros - que o tempo em que vivemos nos lance o que tem de "mais temporal", que os seus imundos pássaros nos joguem seu excremento, os garotos, sua tralha, e os exaustos andarilhos que junto a nós descansam, suas misérias pequenas e grandes. Mas nós faremos como sempre fizemos: levamos o que nos lançam para a nossa profundidade - pois nós somos profundos, nós não esquecemos - e tornamo-nos novamente límpidos..." Friedrich Nietzsche; Gaia Ciência.

Poesia

Não me importam os caminhos por onde me levará a poesia. Nem se ela escorre na página em branco ou numa pele macia. Se construção arquitetada ou estilhaços de versos, Não me importam seus processos. Importa é que ela nasça: Seja flor brotada num túmulo frio_ onde havia anseios Ou no sangue correndo quente _ no bico dos seios… (A poesia respira no vento…)" Marla de Queiroz

De Profundis

"As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber. Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios. É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?" Oscar Wilde, in De Profundis

Prazer

"Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros." Hermann Hesse; O lopo da Estepe

Tu és tu mesma

"Mas alguma coisa se quebrou em mim que fiquei com o nervo partido em dois. No começo as extremidades relacionadas com o corte me doeram tanto que fiquei muito pálida de dor e perplexidade. Os lugares partidos foram porém cicatrizando. Até que friamente, eu não me doía. Mudei, sem planejar previamente. Antes eu te olhava de meu de dentro pra fora e do dentro de ti, que por amor, eu adivinhava. Depois da cicatrização passei a olhar-te de fora para dentro. E a olhar-me também de fora para dentro: eu me transformara num amontoado de fatos e ações que só tinham raiz no domínio da lógica. A princípio eu não pude me associar a mim mesma. Cadê eu? perguntava-me. E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e categoricamente: tu és tu mesma." Clarice Lispector; Um sopro de vida

Saúde mental

"A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiências. E aceito o acaso. Anseio pelo que ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou felizmente mais doida. E minha ignorância aumenta. A diferença entre o doido e o não doido é que o não doido não diz nem faz as coisas que pensa. Será que a polícia me pega? Me pega porque existo? Paga-se com prisão a vida: palavra linda, orgânica, sestrosa, pleonástica, espérmica, duróbila." Clarice Lispector, Um sopro de vida

Liberdade

Quando leio algo que verdadeiramente me identifico, que toca algo mais profundo da minha alma pela clareza das palavras ao expressar uma ideia ou um sentimento, minha vontade primária e fantasiosa é compartilhar a outro indivíduo integralmente o texto escrito e as sensações provocadas. Minha vontade é de sair por aí declamando como todos deveriam ler, entender e refletir o fragmento escrito. Queria que as palavras eternizadas pudessem surtir o efeito de transformar, na prática, o ambiente atual em algo melhor, algo mais digno para humanidade e para convivência. Queria que pudessem entender a necessidade de desenvolvimento e liberdade do pensamento, só possíveis através da leitura e de bons professores do amor. E ainda entendessem que não é qualquer leitura que transforma, que abre mais espaço na mente para novas compreensões. Porque tem leitura que aprisiona, que restringe o raciocínio, queria que soubessem identificar a diferença. Ah, mas quanta presunção a minha. Alguns poderiam...

Realidade

"Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma." Rubem Alves

És tu

Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens… não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo. Vê a tua vida em todas as origens. Em todas as existências. Em todas as mortes. E sabes que serás assim para sempre. Não queiras marcar a tua passagem. Ela prossegue: É a passagem que se continua. É a tua eternidade. És tu. Cecília Meireles