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Mostrando postagens de maio, 2017

A falsa emancipação da mulher

"Actualmente, tem-se a pretensão de que a mulher é respeitada. Uns cedem-lhe o lugar, apanham-lhe o lenço: outros reconhecem-lhe o direito de exercer todas as funções, de tomar parte na administração, etc.; mas a opinião que têm dela é sempre a mesma - um instrumento de prazer. E ela sabe-o. Isso em nada difere da escravatura. A escravatura mais não é do que a exploração por uns do trabalho forçado da maioria. Assim, para que deixe de haver escravatura é necessário que os homens cessem de desejar usufruir o trabalho forçado de outrem e considerem semelhante coisa como um pecado ou vergonha. Entretanto, eles suprimem a forma exterior da escravatura, depois imaginam, persuadem-se de que a escravatura está abolida mas não vêem, não querem ver que ela continua a existir porque as pessoas procedem sempre de maneira idêntica e consideram bom e equitativo aproveitar o trabalho alheio. E desde que isso é julgado bom, torna-se inveitável que apareçam homens mais fortes ou mais astutos disp...

Impossível é não viver

"Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho. Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos. Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando e...

Aprender a ver

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lent...

Habitua-te

Aprende. Que as coisas são ironicamente e apenas o que são: habitua-te. Que as tuas opiniões valem ironicamente e apenas o que valem: habitua-te. Que a tolerância não é uma maneira de viver; é a única maneira de viver: habitua-te. Que é fundamental que nem tudo corra bem como é fundamental que nem tudo o que corre mal te faça mal: habitua-te. Que não tens o direito de magoar só porque te magoaram: habitua-te. Que a injustiça acontece quer tu queiras quer não queiras: habitua-te. Que por vezes não tens de mudar nada em ti para tudo mudar em ti: habitua-te. Que não tens sempre razão e que a razão não vale a ponta de um chavelho quando comparada com tudo o que ganhas quando não a tens: habitua-te. Que pode haver algo maior do que amor nesta vida mas se houver ainda não foi descoberto: habitua-te. Que a saudade não serve para magoar; serve para continuar a amar: habitua-te. Que o medo não serve para parar; serve para trazer a coragem de continuar a andar: habitua-te. Que se não rires pelo ...
"Essas nobres palavras, que parecem tão novas àqueles que as dizem, foram ditas da mesma forma centenas de vezes antes. O pêndulo da balança para trás e para frente. O círculo sempre se repete novamente. " W. Somerset Maugham. In: Um gosto e seis vinténs. Foto: Philip Jones Griffiths, 1968.

Finalidade da vida

"Mas então a gente se lembra de um sujeito que uma hora antes estava cheio de vida e de alegria e agora está morto. Tudo tão cruel e sem significação! É difícil deixar de perguntar a si próprio que finalidade tem a vida, se ela tem algum sentido ou se não passa de um erro trágico por parte do destino cego." W. Somerset Maugham

A História da Humanidade em Três Palavras

Felipe lembrou-se da história do Rei do Oriente que, desejando conhecer a história da humanidade, recebeu de um sábio quinhentos volumes; ocupado com negócios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o sábio voltou e a sua história ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, já velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, porém, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. Aí o sábio deu-lhe a história da humanidade numa única linha: "Nasceram, sofreram, morreram". Somerset Maugham, in "A Servidão Humana"