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Mostrando postagens de novembro, 2017
"E foi nessa idade… Chegou a poesia para buscar-me. Não sei de onde saiu, do inverno ou do rio. Não sei como nem quando, não, não eram vozes, não palavras, nem silêncio, mas desde uma rua que me chamava, desde os ramos da noite, de súbito entre os outros, entre fogos violentos ou regressando só, ali estava sem rosto e me tocava. Não sabia o que dizer, a minha boca não sabia, nomear, meus olhos eram cegos, algo me golpeava a alma, febre ou asas perdidas, fui me fazendo só, decifrando aquela queimadura, e escrevi a primeira linha vaga, vaga, sem corpo, pura brincadeira, pura sabedoria de quem não sabe nada, e vi de súbito o céu debulhado e aberto, planetas, plantações palpitantes, a sombra perfurada, atravessada por flechas, fogo e flores a noite agasalhadora, o universo. E eu, um mínimo ser, ébrio do vazio enorme constelado, à semelhança, à imagem do mistério, senti-me parte pura desse abismo, girei com as estrelas, meu coração se desatou no vento." Pablo Neruda - ‘A Poesia’;...

Desejo

Somos desejos jogados no mundo li isso certa vez ou inventei fato é que um homem que não deseja já morreu Tenho a impressão que essas palavras não são minhas palavras têm dono? Se tiverem, me desculpe roubei de alguém há perdão para isso? Crime que se comete sem saber? Sou indiferente ao pecado tanto faz afinal Vítima ou algoz Quando eu desejo sei que estou viva morro quando não alcanço a extensão do meu querer mas renasço sempre em busca de uma nova satisfação Há muita pulsão a ser pulsada ou não a gente nunca sabe nunca vai saber Só sabemos que respirar é um ato e tanto de coragem valentia maior ainda é a busca a procura elevada por aquilo que faz vibrar arder, queimar Você ainda queima? Pelo quê? Desejar não justifica Fazer algo em relação a isso, talvez Tu ainda vive ou já morreu? Joice Buzzi

III - Confissão de artista

"Como são penetrantes as tardes de outono! Penetrantes até à dor! Há certas sensações deliciosas em que o vazio não exclui a intensidade. E não há ponta mais acerada que a do infinito. Grande delícia, mergulhar os olhos na imensidão do céu e do mar! Solidão, silêncio, incomparável castidade do azul! Pequena vela a tremular no horizonte, cuja fraqueza e isolamento imitam minha irremediável existência. Melodia monótona das ondas. Todas essas coisas pensam por mim, ou eu penso por todas: na grandeza do sonho, o eu logo se perde! Pensam, repito, mas musical e pinturescamente, sem argúcias, sem silogismos, sem deduções. Todavia, esses pensamentos, que partem de mim ou se precipitam das coisas, logo se tornam demasiado intensos. A energia na volúpia cria uma inquietude e um sofrimento positivos. Meus nervos, tensos demais, dão apenas vibrações agudas e dolorosas. E agora a profundeza do céu me consterna; exaspera-me a sua limpidez. Revoltam-me a insensibilidade do mar, a imutabilidade d...
"Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe beleza no que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só existe porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objectos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixamo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingênua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça...
"E me contou sobre um adolescente que estava enamorado de uma estrela. Junto ao mar estendia os braços para ela, adorava-a, sonhava com ela e lhe dedicava todos os seus pensamentos. Mas sabia, ou pensava saber, que um homem não pode alcançar uma estrela. Imaginava que seu destino era amá-la sempre sem esperanças e construiu sobre essa ideia toda uma vida de renúncias e de dores, muda e fiel, que devia purificá-lo e enobrecê-lo. Uma noite estava de novo sentado junto ao mar, no alto de uma escarpa, contemplando a amada e ardendo de amor por ela. E num instante de profundo anseio, saltou no vazio para alcançar a estrela. Mas ainda não pensou na impossibilidade de alcançá-la e caiu, arrebatando-se contra as rochas. Não sabia amar. Se no momento de saltar tivesse força de alma o bastante para crer e fixamente na obtenção do seu desejo, teria voado para o céu para encontrar sua estrela. O amor não deve pedir (...) nem tampouco exigir. Há de ter a força de chegar em si mesmo à certeza e...
"No céu, ardente e secreto, brilha o rosto da noite escura. Muito longe, no porto, passam luzes, e os uivos dos trens se tornam mais espaçados. As estrelas crescem, depois diminuem; desaparecem e renascem, formando figuras instáveis entre si, sempre renovadas. No silêncio, a noite retoma sua espessura e sua carne. Plena do deslizar de suas estrelas, ela deixa nos olhos o jogo de luzes que os enchem de lágrimas. E cada um, mergulhado na profundeza do céu, encontra, naquele ponto extremo onde tudo coincide, o pensamento secreto e terno que faz toda a solidão de sua vida. [...] O mundo só diz uma única coisa. E, nessa verdade paciente que vai de estrela à estrela, reside uma liberdade que nos desliga de nós mesmos e dos outros, como nessa outra verdade paciente que vai da morte à morte. Patrice, Catherine, Rose e Claire tomam consciência então da felicidade que nasce de sua entrega ao mundo. Se essa noite é imagem de seu destino, admiram-se de que seja ao mesmo tempo carnal e secreto...
"Nada mais somos do que a soma de uma infinita totalidade de partículas, moléculas, acontecimentos, aprendizados, sentimentos e transformações, viajando, vagando no Tempo, desde o principio,"Eus", eis o que somos . Tecendo nossa rede, gota d’água que somos neste oceano, caminhando, podemos flutuar como uma pluma, porém, acontecendo-nos de desviar a atenção exigida pela jornada, podemos espetar nossos dedos, o que nos leva diretamente a arder em nosso próprio pára-inferno . Devemos estar atentos, olhos de águia, ouvidos de lobo. Passos leves, mandíbulas preparadas. Em cada Tudo: uma incrível imensidão. A cada respiração, é o hálito do Universo aquilo que nos chega. Vindo de longínquos tempos, remotos tempos, a refrescar nossos pulmões, aquecer nossos corações, renovando-se a Terra, e toda a Vida Nela existente. No ato da respiração, a simples manifestação do Sempre. E se assim é, do Amor Existencial, se possível for, preenchamos cada poro, cada passo, cada polegada. Do Am...
"14. Ainda que pudesses viver três mil anos e outras tantas vezes dez mil, ainda assim lembra-te de que ninguém perde outra vida além da que vive, nem vive outra além da que perde. Consequentemente, o mais longo e o mais curto confluem em um mesmo ponto. O presente, de fato, é igual para todos; o que se perde é também igual, e o que se separa é, evidentemente, um simples instante. Assim, nem o passado nem o futuro podem ser perdidos, porque, o que não se tem, como alguém nos poderia tirar? Tenha sempre presente, portanto, essas duas coisas: uma, que tudo, desde sempre, se apresenta de forma igual e descreve os mesmos círculos, e nada importa que se contemple a mesma coisa durante cem anos, duzentos ou um tempo indefinido; a outras, que o que viveu mais tempo e o que morrerá mais prematuramente, sofrem perda idêntica. Porque somente podemos ser privados do presente, posto que possuímos apenas o presente, e o que não se possui, não se pode perder." Marco Aurélio in M...
"Mãe, tudo o que eu queria hoje era correr! Pegar uma via expressa, uma trilha na mata, uma beira de praia e só parar quando os sapatos apertassem. Fugir, mãe, fugir. Inventar uma melodia minha, gravar na mente e fugir. Largar os cachecóis, as malas, os casacos, os chapéus. Depois as meias, as camisetas largas e se possível, todas as minhas dores também. Do mais externo, ao mais interno, tudo o que eu queria agora, mãe, era o brilho da falta das lembranças. Não há brilho de estrelas hoje para mim. Tudo o que eu queria era arrancar os sapatos, os pesos de papel que me prendem ao chão e, na velocidade da luz, atravessar o mundo até me desmanchar em pedacinhos de poeira. Eu gostaria de me tornar uma nebulosa essa noite. Dormir no fim do percurso longo, eternamente, pelo universo. Mãe, é que eu cansei de ser gente. Eu cansei de sentir feito gente. Hoje eu quero voltar sozinha para o interior de um buraco negro, ainda que isso seja o maior perto do dramático que posso chegar. Cansei de...
"Creio que, desde muito pequeno, minha infelicidade, e ao mesmo tempo minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Não me bastava que explicassem ou afirmassem algo. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objeto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a me estilhaçar." Julio Cortázar
"Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo." Caio Fernando Abreu
"Tudo é milagre. Não precisa curar leprosos. Não preciso de milagres desse tipo. A cor amarela, para mim, é um milagre. A percepção é um grande milagre. Poder ouvir um som, mi bemol, é um milagre. O azul, as experiências biológicas, o gosto da batata frita, são milagres. Dar três trepadas numa noite é um milagre. O mundo é cheio de milagres. E as pessoas ficam procurando… As pessoas querem circo. Não preciso de circo, o zen não precisa de circo. O zen diz: ‘é aqui e agora’." Paulo Leminski - entrevista publicada no caderno 2 do Estadão, 1986
"A poesia é movimento da linguagem em direção ao desconhecido. Um poeta não se faz com versos. O poeta é movimento. E todo ser em movimento é perigoso. Todo ser que se transforma incomoda. O poeta em movimento flagra o lado patético de nossas verdades absolutas, o belo que se esconde naquilo que tememos." Paulo Leminski

A mentira está em ti

" «Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?» «Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz?» «Muita coisa mais do que isso, Fala-me de muitas outras coisas. De memórias e de saudades E de coisas que nunca foram.» «Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.»" Alberto Caeiro / Fernando Pessoa; in O Guardador de Rebanhos
"Toda a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo. Contentar-se com o que lhe dão é próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos […] A ânsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da sensibilidade. Substituir a Inteligência à energia, quebrar o elo entre a vontade e a emoção, despindo de interesse todos os gestos da vida material, eis o que, conseguido, vale mais que a vida, tão difícil de possuir completa, e tão triste de possuir parcial. Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso. Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver." Bernardo Soares / Fernando Pessoa; “Capítulo sobre Indiferença ou algo parecido” - Livro do Desassossego
"[…] Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspecto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha inimportância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz." Bernardo Soares / Fernando Pessoa; in Livro do Desassossego
"O milagre não é dar vida ao corpo extinto, Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo… Nem mudar água pura em vinho tinto… Milagre é acreditarem nisso tudo!" Mario Quintana

Razão

Tenho aprendido com a psicologia e a filosofia estoica que nosso maior objetivo existencial é o de aprender a domar nossos instintos e emoções por meio do exercício da razão. Ninguém pode negar a capacidade que todos temos de moldar e conduzir nossos pensamentos, racionalmente. Tenho a liberdade de pensar o que vou comer daqui 20 minutos e no instante seguinte decidir pensar numa conversa que pode nunca vir a acontecer. Temos o poder de intervir em tudo aquilo que compõe nosso pensamento. Freud, o conhecido pai da psicanálise introduziu na história do pensamento humano uma instância da psique até então ignorada no processo de pensar: o inconsciente. Portamos, então, uma espécie de local imaterial em nossa mente que armazena conteúdos inacessíveis para a nossa consciência. Seu substrato consistiria predominantemente por traumas, experiências negativas que nos trariam sofrimento. Estes conteúdos conduziriam algumas de nossas ações e atitudes. Dispomos, portanto, de uma espécie de guia ...

Lugar

Que eu não perca a capacidade de encontrar o canto sossegado onde minha alma pode respirar em paz. O lugar onde o vento dos acasos não perturbe com violência suficiente a minha chama interior, a ponto de apagá-la. Que este lugar não seja de difícil acesso, que não se afaste muito de meus olhos cansados. Que eu o possa encontrar no sorriso daqueles que trago no peito ou no sorriso dessa gente que por um instante encontra a felicidade que tanto merece. Que eu não faça esse lugar inalcançável e tão distante da minha realidade. Que eu não o transforme em um prêmio, um destino final. Um lugar platônico que procuro e nunca encontro. Que seja real, que esteja aqui, independente da paisagem que se fizer em meu caminho. Que eu não exija muito deste lugar, que eu não o queira sempre belo e limpo. Que eu resista a toda tendência em acreditar que esse lugar não existe. Ele existe, basta ajustar as lentes e os graus dos sentidos. Para tanto, que eu não perca essa incrível e penosa capacidade de me...
"Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos. A solução para esse absurdo que se chama ‘eu existo’, a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista." Clarice Lispector
"Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu." Bernardo Soares / Fernando Pessoa