Pego o notebook, sento na grama do jardim e espero a iluminação da divindade criativa me fazer uma visita. Sei que tenho algo a expressar, sinto que algo em mim quer falar e eu quero tanto deixar. Mas não sei que palavras eu uso, nem por onde começo. Talvez só o fato de me por aqui, em frente a essa página em branco, escrevendo algumas palavras sem sentido e finalidade, possa satisfazer essa vontade que me invade. A arte e a cultura servem para esse fim mesmo. Ainda que não produzam algo significativo para quem recebe, quem produz se satisfaz com o que é produzido. Ainda que não diga nada com nada, ainda que sejam apenas riscos e rabiscos. E é bom não questionar demais. Permitir-se me parece a melhor opção. Permito-me. Desculpe se ofendo os grandes, os verdadeiros poetas e pensadores. Estou tão longe de pretender isso. Só estou usando o que me cabe para obter um pouquinho de felicidade. No meio da dor de existir a gente tem que encontrar meios para se fazer feliz e evitar o despra...
Caminhar pela vida levanta poeira, faz acumular sujeira no canto das coisas. Um papel de bala em cima da cômoda lembra que não há mais bala, não há mais doce... Só a embalagem juntando formigas, ocupando espaço que poderia servir para novas balas, novos sabores ainda não experimentados. Por isso faxinar é um ritual sagrado. Importante para evitar acúmulo de sujeira– inevitável sujeira – marcas do tempo passado. Marcas do tempo vivido... Não dá pra ignorar a sujeira, fingir que não existe, jogar pra debaixo do tapete, não assumir a nossa responsabilidade em organizar. É preciso deixar limpo para a bagunça seguinte. Pois quanto maior a pilha de sujeira acumulada, maior o trabalho para organizar. É vital reciclar. Resignificar, se preferir. Dar ao papel da bala um novo espaço, não menor do que já foi. Apenas diferente. Abrir clareira, renovar o ar... É tempo de limpeza. Joice Buzzi
"Fidelidade à verdade, antes de tudo! É nisso que a fidelidade se distingue da fé e, a fortiriori, do fanatismo. Ser fiel, para o pensamento, não é recusar-se a mudar de idéia (dogmatismo), nem submeter suas idéias a outra coisa que não a elas mesmas (fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de idéia sem boas e fortes razões e – já que não se pode examinar sempre – é dar por verdadeiro, até novo exame, o que uma vez foi clara e solidamente julgado." André Comte-Sponville in Pequeno tratado das grandes virtudes
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