Revi mentalmente a teoria do David, as suas palavras antes de me mandar à vida. “Juntamo-nos porque há a simpatia inicial, depois o enamoramento, mas também para que olhem por nós, nos tragam um chá e um cobertor. Saber bem haver quem se preocupe conosco, nos toque no braço, nos cabelos e nas mãos. Juntamo-nos porque é o que se faz há milhares de anos e o que se espera que façamos. Juntamo-nos para que as vidas se justifiquem e legitimem, ao assemelharem-se a todas às outras. É assim que se faz. Juntamo-nos e ficamos nivelados e amparados. Juntamo-nos porque acreditamos amar-nos. Temos filhos. Entramos para esse exército, que é também um corpo diplomático. Habituamo-nos. Não estamos presos, mas de quem é este livro, e aquele jarrão? De quem é esta casa, este filho? Os gestos habituais que conhecemos de cor ao acordarmos de manhã, fazemo-los porque estamos juntos ou porque nos pertencem? O que é meu e o que é teu? Seria bom estar só, uns tempos, sem filhos, sem contas para pagar e sem obrigações; isso seria vida, mas urgente, agora, é chegar o verão. Liquidar os atrasados com subsídio das férias. Comprar roupas para as miúdas. Substituir o frigorífico que não congela há mais de dois meses. Descansar por quinze dias. Amamos aquele com o qual estamos juntos? Estamos juntos, não interessa quem amei mais? A minha mãe casou para se amparar, o tio Alberto amou toda a vida a cunhada e nem no leito de morte lho revelou, e a minha tia Inês negou-se ao rapaz por quem se apaixonou por estar prometida ao tio Alberto. Todos cumpriram as suas obrigações. Não terem acordado ao lado do objeto amado, não terem iniciado os gestos ou as palavras do amor não amputou a paixão. Amaram na presença e na ausência. É assim que se faz. O amor não anda ao nosso lado, o amor anda à solta nos peitos, como um pássaro engaiolado. Adormece-nos. Desperta-nos. Faz-nos sair e voltar a casa. Chorar. Rir. E se isto não é viver, o que é vida?”
A gorda, Isabela Figueiredo, p. 71 e 72. Todavia, 2018.
Arte
Pego o notebook, sento na grama do jardim e espero a iluminação da divindade criativa me fazer uma visita. Sei que tenho algo a expressar, sinto que algo em mim quer falar e eu quero tanto deixar. Mas não sei que palavras eu uso, nem por onde começo. Talvez só o fato de me por aqui, em frente a essa página em branco, escrevendo algumas palavras sem sentido e finalidade, possa satisfazer essa vontade que me invade. A arte e a cultura servem para esse fim mesmo. Ainda que não produzam algo significativo para quem recebe, quem produz se satisfaz com o que é produzido. Ainda que não diga nada com nada, ainda que sejam apenas riscos e rabiscos. E é bom não questionar demais. Permitir-se me parece a melhor opção. Permito-me. Desculpe se ofendo os grandes, os verdadeiros poetas e pensadores. Estou tão longe de pretender isso. Só estou usando o que me cabe para obter um pouquinho de felicidade. No meio da dor de existir a gente tem que encontrar meios para se fazer feliz e evitar o despra...
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