Eu te ouvi

"Eu lhe ouvia. Mesmo quando tudo o que você tinha para me dizer era o silêncio. Mesmo quando suas palavras eram, tão somente, a forma como você me olhava, como não me olhava. Ouvia você tocar a minha mão com um toque tão gentil que soprava todas as sinfonias do mundo para dentro dos meus pulmões, até que tudo o que eu respirasse fossem as infinitas músicas que você sussurrava para mim. Ouvia quando sua perna roçava desajeitada sobre a minha, quando teu quadril se insinuava sobre o meu, ou quando tua passada distraída criava uma dissonância de sons que terminava com a tua risada. Eu te ouvia. Ouvia você por cada segundo que tornava tudo o mais um silêncio doloroso e sufocante, um miasma que me arrancava cada centímetro da vida que corria pelas minhas veias. Pelas nossas veias. Eu ouvia teu silêncio sob teus olhos pensativos, mergulhada em devaneios e segurando aquela velha xícara de café que você havia remendado, apenas porque era preciosa demais para deixar partida. Eu te ouvi. Por horas, dias, minutos. Por vidas. Eu te ouvi. E se me fosse arrancada a audição, por fatalidade ou crueldade, eu ainda ouviria o que de mais belo você me disse por mais uma ou duas vidas adiante."

André Camargo

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arte