Por Clarice Lispector

"Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava
arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo
de ser, o seu atalho, já que não ousava mais falar em caminho. Agarrava-se ferozmente à
procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras
refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde ela fosse finalmente ela, isso
só em certo momento indeterminado da prece ela sentira. Mas também sabia de uma
coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os
outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salvo e pensaria: eis o meu
porto de chegada. Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar no mundo."

Clarice Lispector in Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

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