Incoerência

Querem tempo, mas não percebem o tempo que eles têm e desperdiçam. Jogam fora pela janela do trabalho e do tédio. Pelos amores mal amados. Pelas paixões sem fogo. Pela vida mesquinha de não saber como ser sozinho e precisar de alguém pra ter valor. Querem tempo para viver, mas não vivem o que tempo que eles têm. Se afogam no auto engano, na preguiça, na monotonia, no que eles supõem ser a correria de um dia intenso e cheio de ocupações. Ocupam-se com tarefas das quais não são felizes, para esquecer o quanto são infelizes nos momentos de folga. Não cuidam de si mesmas, ferem a si e aos outros sendo tão superficiais e sem criticidade. Passam pelos dias, só desejam o fim de semana e quando ele chega se embriagam para esquecer o que é viver, o que é amar, o que é doer. Perdem a vida, querendo ganhá-la. Juntam dinheiro que não terão tempo, nem disposição para gastar. Ficará para uma posterioridade supérflua e sem interesses. Que não se entrega, que é covarde. Que se perde no brilho intenso de uma tela de celular e esquece de olhar o brilho mais intenso das estrelas e dos olhos de alguém. Não aprecia o universo e não se dá conta da sua própria condição de pequeneza. Não entende sua responsabilidade no mundo e acha que ele gira em torno de si. Ignora que o planeta terra é só mais um entre milhões, que há muito mais do que o nosso olho pode ver e do que nossa mente conhecer. Querem tempo. Desperdiçam tempo. Incoerência, leitor, leitor, incoerência. Eles costumam se vestir de seres humanos.

Joice Buzzi

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