Por Camila Cecílio

"aos vinte e oito

Aos 28 a gente se dá conta de que muitas coisas mudam no escorrer dos anos. Cabelo, pele, roupas, gostos, perspectivas, planos e prioridades, em especial. Algumas decepções já não têm o mesmo peso que tinham aos 21. Alguns sonhos ficam guardados para dar lugar a novos caminhos possíveis. Clube da Esquina canta que eles, os sonhos, não envelhecem e também acho que não. Mas aos 28 a gente começa a querer coisas reais, a querer fazer e ver acontecer.

Aos 28 a gente já gosta muito mais de gente que liga quando diz que vai ligar do que de que quem diz coisas bonitas e as mantém no campo das suposições. Aos 28 preferimos gente disponível, disposta a correr riscos por amor, paixão, loucura e brilho nos olhos – mesmo que cansados. Aos 28 nos damos conta de que é muito mais interessante jogar na roda, abrir o peito e dizer sim ou não, quero não quero, vou não vou, já é ou já foi, do que esconder emoções.

Aos 28 a gente não tem pressa, mas também não quer perder tempo. No emprego que já não dá tesão, nas amizades que não acrescentam, nas promessas sem ação. A verdade é que não estamos mais dispostos a aceitar qualquer oferta, qualquer conversa, qualquer sexo, qualquer carinho, qualquer coisa que for. Aos 28 a gente quer um pouco mais da vida, um pouco mais de nós e do todo ao redor.

Aos 28 a gente se dá conta da força que tem e os band aids estão aí para nos lembrar que os cortes vão cicatrizar e aquelas marcas vão ficar ali pra contar qualquer história em um futuro novinho em folha. Num livro, numa música, num desenho no céu, num rascunho no Word 2013, na brisa leve que entra pela janela do quarto. Qualquer história sobre se jogar, flutuar, voar ou nadar e morrer na praia para depois respirar feliz.

Aos 28 começa o retorno de Saturno e provavelmente a gente ainda esteja se esforçando para se segurar naqueles anéis – e tudo bem, take your time. Com essa jornada astral, os questionamentos, as bifurcações, as transições. O que é esse tanto de tralha que a gente carrega na mala? E todos esses planos mirabolantes postos no armário? E essa vontade louca de não-sei-o-que? Bem, só precisamos saber que o Universo é amigo e não exige nada de nós, mas quer conspirar a nosso favor, desde que a gente faça o mesmo por nós. Astrologia a parte, os 28 parece uma boa hora para ajeitar os ombros e enxergar além (mesmo).

Aos 28 as coisas simples são mais bonitas. O abraço de chegada daquele amigo que há tempos se mudou para outra cidade, a vontade de assistir um filme mesmo morrendo de sono só pra estar junto um pouco mais, a dois. O café da tarde só pra ouvir sua avó falar sobre coisas da idade e constatar que o tempo é mesmo rei, como bem disse Gil. O olhar para a rua molhada pela chuva que passou enquanto você dormia, a respiração afobada dos seus cachorros, o pelo macio dos seus gatos, uma mensagem inesperada de saudade no meio da tarde, um porre de catuaba não planejado e outras distrações que fazem a passagem por essa vida ser mais leve.

Aos 28 a gente não quer ser o vencedor do Show do Milhão, aliás, a gente não quer vencer (UFA!). Não quer gastar saúde física e mental onde não há alegria, não quer sofrer por quem não nos quer, nem se lamentar por quem não se esforça o bastante para demonstrar que se importa. Aos 28 a gente quer que as coisas sejam de verdade, ainda que por uma noite ou pelo infinito – posto que é chama. A gente quer que o tempo caminhe de mãos dadas com aquele batuquizinho cardíaco e aquela fezinha de cruzar os dedos de que dias melhores virão. Para nós, para os nossos e para esse lugar tão quente e bonito que chamamos de lar (#FORATEMER).

Aos 28 a gente quer continuar botando fé nas pessoas e no amor. A gente quer chorar de felicidade e rir do que não tem solução. Quer ter café quentinho, bom dia sincero e suavidade nas coisas todas. Aos 28 a gente quer ter coragem para viver os outros anos, poucos ou não, mas intensos – melhor ainda se for com o coração na mão, pulsando o ontem de caso com o amanhã, pulsando a vida toda pela frente, aos 28."

Camila Cecílio

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