Entre a luz amarelecida dos postes e seus olhos, finas hastes de vidro cortavam verticalmente o vácuo existente; caíam das trevas que se firmavam acima das luzes. A chuva, fria e mansa, silenciosamente plastificava a pele negra da rua, tornando aquele corpo áspero e serpentino do asfalto mais escuro que as noites sem luar. Espaçadamente a beleza do pretume molhado era interrompida por círculos incandescentes que reinavam sobre o chão pétreo, salpicando de milhares e milhares de partículas faiscantes, paridas das luzes dos postes imóveis.
Envolto em sua capa e chapéu, imperceptível, abrigado em sombra densa, fundiam-se homem e escuridão. Estático, absorvido, tragado pelos seus pensamentos, parecia espreitar algo. Sua parada dera-se pela aura envolvente e propícia que comunicava-lhe todo o conjunto daquele lugar ao seu redor.
Sua necessidade era estar consigo. Estar só. Ouvir as ondas de sua alma, sentir o fluxo de sua própria maré. E, conforme chocavam-se as ondas nas rochas da orla de seu peito, no farfalhar das águas, surgiam-lhe sentimentos inclassificáveis, emergiam semblantes, ora conhecidos ora não, frutos de sua mente liberta, qual cavalos selvagens, correndo livres ao seu querer sobre as pradarias. Desligava-se por completo e voltava, mas no seu retorno, nada conjecturava: simples e total liberdade.
Era esse seu alimento sagrado, devanear. Encontrava imenso prazer em não precisar fingir no jogo dos estímulos cotidiano das pessoas. Absorto no nada e para nada, se ele pudesse, assim permaneceria indiferente, sabe-se lá quanto tempo, longe de qualquer coisa que lhe motivasse o interagir.
Captando mistério até mesmo nas rachaduras das cascas das árvores, apercebendo-se do Universo numa pequenina gota d’água, tendo sentimentos inefáveis onde os olhos dos acostumados só veem o vazio, com essa sua natureza peculiar, nada mais enfadonho que o teatro social. Dilacerava-lhe, toda e qualquer obrigação do mundo das relações. Parecia-lhe estupidez viver mecanicamente. Disso resultava sua necessidade em encontrar locais para estar consigo mesmo. Esses lugares eram os seus portais. Projetava-se, ruas afora, sem destino, até que acontecesse de ser tragado, possuído pelo íntimo. Encontrando um portal, era parar e deixar de ser a pasta humana, desligar-se. Simultaneamente conectava-se, com o mais remoto do teu ser, com seus mistérios próprios, primitivos e instigantes. Nesse seu santuário, não penetraria o grande inimigo dos mortais: o dobrar dos sinos, o tinir dos pêndulos, o caminho causticante das horas que quebram as vidraças da alma e esmigalham o ato de viver. O pacto estaria quebrado, anulado o contrato de aluguel, nem um segundo seu para ninguém, ninguém! Longe das casas, pré-túmulos que são, que nos ensinam a morrer lentamente, despido de paredes, tendo por teto somente a abóboda celeste, até o ar lhe era afável, respirar já não era mais um ato de sobrevivência mendicante. Era paz, prazer, e leveza...
(...)
Talvez aquele homem tivesse descoberto um tesouro, mas só seu, incomunicável e incompatível aos anseios contemporâneos da multidão que compete na corrida do faz-de-conta, do eterno ouro de tolo. Talvez, a loucura lhe tivesse apanhado; mas o que isso significaria? Se assim fosse, seria nada mais que um respingo nesse oceano delirante chamado normalidade.
Marcelo Rocha. In: Despindo-se da Per-sona
Envolto em sua capa e chapéu, imperceptível, abrigado em sombra densa, fundiam-se homem e escuridão. Estático, absorvido, tragado pelos seus pensamentos, parecia espreitar algo. Sua parada dera-se pela aura envolvente e propícia que comunicava-lhe todo o conjunto daquele lugar ao seu redor.
Sua necessidade era estar consigo. Estar só. Ouvir as ondas de sua alma, sentir o fluxo de sua própria maré. E, conforme chocavam-se as ondas nas rochas da orla de seu peito, no farfalhar das águas, surgiam-lhe sentimentos inclassificáveis, emergiam semblantes, ora conhecidos ora não, frutos de sua mente liberta, qual cavalos selvagens, correndo livres ao seu querer sobre as pradarias. Desligava-se por completo e voltava, mas no seu retorno, nada conjecturava: simples e total liberdade.
Era esse seu alimento sagrado, devanear. Encontrava imenso prazer em não precisar fingir no jogo dos estímulos cotidiano das pessoas. Absorto no nada e para nada, se ele pudesse, assim permaneceria indiferente, sabe-se lá quanto tempo, longe de qualquer coisa que lhe motivasse o interagir.
Captando mistério até mesmo nas rachaduras das cascas das árvores, apercebendo-se do Universo numa pequenina gota d’água, tendo sentimentos inefáveis onde os olhos dos acostumados só veem o vazio, com essa sua natureza peculiar, nada mais enfadonho que o teatro social. Dilacerava-lhe, toda e qualquer obrigação do mundo das relações. Parecia-lhe estupidez viver mecanicamente. Disso resultava sua necessidade em encontrar locais para estar consigo mesmo. Esses lugares eram os seus portais. Projetava-se, ruas afora, sem destino, até que acontecesse de ser tragado, possuído pelo íntimo. Encontrando um portal, era parar e deixar de ser a pasta humana, desligar-se. Simultaneamente conectava-se, com o mais remoto do teu ser, com seus mistérios próprios, primitivos e instigantes. Nesse seu santuário, não penetraria o grande inimigo dos mortais: o dobrar dos sinos, o tinir dos pêndulos, o caminho causticante das horas que quebram as vidraças da alma e esmigalham o ato de viver. O pacto estaria quebrado, anulado o contrato de aluguel, nem um segundo seu para ninguém, ninguém! Longe das casas, pré-túmulos que são, que nos ensinam a morrer lentamente, despido de paredes, tendo por teto somente a abóboda celeste, até o ar lhe era afável, respirar já não era mais um ato de sobrevivência mendicante. Era paz, prazer, e leveza...
(...)
Talvez aquele homem tivesse descoberto um tesouro, mas só seu, incomunicável e incompatível aos anseios contemporâneos da multidão que compete na corrida do faz-de-conta, do eterno ouro de tolo. Talvez, a loucura lhe tivesse apanhado; mas o que isso significaria? Se assim fosse, seria nada mais que um respingo nesse oceano delirante chamado normalidade.
Marcelo Rocha. In: Despindo-se da Per-sona
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